26 de fevereiro de 2015

CIÊNCIA E RELIGIÃO: UMA GUERRA DESNECESSÁRIA



Artigo publicado na revista Ciência Hoje, nº 304, vol 51, jun 2013, pág 18-21.

Autores: Francisco Ângelo Coutinho
Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais

Fábio Augusto Rodrigues e Silva
Departamento de Biodiversidade, Evolução e Meio Ambiente, Universidade Federal de Ouro Preto

CIÊNCIA E RELIGIÃO: UMA GUERRA DESNECESSÁRIA

Ciência e religião são duas práticas importantes de nossa cultura. Elas orientam e organizam o mundo em que vivemos, fornecendo explicações sobre sua estrutura e seu funcionamento. Por se fundamentarem em bases diferentes, ou por explicarem o mundo de forma diversa, essas duas tradições, segundo se divulga, sempre estiveram em guerra e o fiel da balança deveria pesar a favor de uma ou de outra.

Ou seja, se uma está certa, a outra deveria estar, necessariamente, errada. No entanto, as coisas não são tão simples. Ao longo da história, as duas tradições mantiveram relações complexas e, às vezes, dolorosas. Na tentativa de organizar o debate e suas formas de ocorrência, são apontadas diferentes categorias das relações entre ciência e religião. A mais bem conhecida é fornecida pelo norte-americano Ian Barbour, físico e filósofo da ciência que identifi cou quatro grupos principais: conflito, independência, diálogo e integração.

Do conflito à integração Segundo a tese do conflito, ciência e religião são mutuamente excludentes e inerentemente incompatíveis. Essa abordagem, que cria uma forte e espessa barreira entre ciência e religião, é defendi da por aqueles que propõem que a posse da verdade en contra-se de um lado ou de outro. São exemplos de defensores dessa postura cientistas como o inglês (nascido no Quênia) Richard Dawkins, o francês Jacques Monod (1910-1976) e o norte-americano Steven Weinberg, bem como fundamentalistas que interpretam a Bíblia literalmente.

A tese da independência também mantém uma forte separação entre ciência e religião, afirmando que essas tradições constituem esferas diferentes que não teriam nada a dizer uma sobre a outra. Para teólogos e filósofos como o suíço Karl Barth (1886-1968), o alemão Rudolf Bultmann (1884-1976) e o norte-americano americano (nascido na China) George Lindbeck, e biólogos como o norte-americano Stephen Jay Gould (1941-2002), as duas têm diferentes métodos, temas e linguagens que simplesmente não competem e, por isso, deveriam ser vistas como duas diferentes jurisdições: uma não deveria interferir nos assuntos da outra.

O diálogo, terceira categoria proposta por Barbour, delineia interações indiretas e fronteiras menos rígidas entre ciência e religião. Nesse caso, afirma-se que as descobertas científicas não necessitam de crenças religiosas, mas os avanços científicos ajudam a religião a encontrar suas respostas, e disso resulta o diálogo.

Como exemplo, pode-se citar o uso que teólogos fazem do conhecimento astronômico e cosmológico para mostrar que as condições iniciais do universo podem apontar para um ato de criação divina.
São defensores do diálogo pensadores como os alemães Wolfhardt Pannenberg e Karl Rahner (1904- 1984), o húngaro Michael Polanyi (1891-1976) e o espanhol, radicado nos Estados Unidos, Francisco J. Ayala.

Finalmente, existe a tese de que é possível estabelecer algum tipo de integração entre ciência e religião. Aqui os limites que separam os dois campos são muito frágeis. Um exemplo da tentativa de integração seria a chamada ‘teologia natural’, que argumenta que as evidências da existência de Deus se baseiam inteiramente na razão humana e não na revelação histórica ou na experiência religiosa. Por exemplo, a complexidade do olho humano indicaria que ele foi planejado para exercer uma determinada função e, por tanto, apontariam para a existência de um planejador – no caso, Deus. Entre os defensores dessa tese encontramos pensadores como o filósofo cristão inglês William Paley (1743-1805), o padre francês Teilhard de Chardin (1881-1955), o reverendo inglês Arthur Pea cocke (1924-2006) e o próprio Ian Barbour.

Visão essencialista a tese do conflito é bastante divulgada atualmente e entre seus líderes está Richard Dawkins. No livro Deus, um delírio, ele argumenta contra os fundamentos das religiões e alega que a existência de Deus é cientificamente improvável e que as religiões são pejudiciais (ver ‘Formando ateus’, em CH 247). Assim, Dawkins claramente organiza uma militância, convocando as pessoas a se libertarem do “vício da religião”.

Sua postura dá a impressão de que ciência e religião estão em guerra e de que devemos escolher um dos lados. Embora possa parecer atraente do ponto de vista da ciência ou mesmo do ponto de vista da religião, essa postura carrega sérios problemas. O principal é que está fundamentada em uma visão essencialista tanto da ciência quanto da religião, ou seja, ela parte da postura de que haveria um conjunto de características essenciais definidoras da ciência e da religião, a partir das quais seria possível argumentar sobre a resolução do conflito.

No caso de Dawkins, ou se aceitam as luzes da razão científica ou se torna adepto das trevas da ignorância religiosa. Essa postura tem implicações sérias, pois favorece a negação de conhecimentos produzidos por outras tradições, engendrando um comportamento fundamentalista e de alienação que pouco contribui para a formação de cidadãos de um mundo plural.

O principal problema que surge quando as relações entre ciência e religião são colocadas no viés essencialista é o pressuposto de que haveria homogeneidade dentro dessas duas tradições e de que seria possível estabelecer características nítidas a separá-las. O problema não pode ser colocado de modo tão simples. Há enorme diversidade de tradições religiosas no mundo atual, cada uma com suas crenças centrais. Quando se fala em religião, pensa-se em quê? O cristianismo, a tradição mais difundida entre nós, é uma entre muitas. É possível pensar em muitas outras, como islamismo, hinduísmo, budismo e judaísmo. Podem-se lembrar ainda os inúmeros sincretismos religiosos e subdivisões em cada religião. O cristianismo, por exemplo, tem diversas formas de manifestação, como catolicismo, luteranismo, anabatismo, espiritismo, cristianismo esotérico e outras.
Além da diversidade, existe ainda o problema de se definir o que é religião. Embora existam várias tentativas, não há consenso sobre o que esta significa. Se tomarmos uma definição, por exemplo, que exige a crença em um Deus, estaremos excluindo o budismo Theravada, a mais antiga escola budista. Outras definições valorizam a dimensão afetiva da fé, como na tentativa do pregador e professor de teologia e filosofia alemão Friedrich Schleiermacher (1768-1834), segundo o qual “a essência da religião é o sentimento de absoluta dependência”. Essa definição exclui, por exemplo, a maioria das formas de budismo e o daoísmo. Inúmeras outras tentativas de estabelecer um conjunto de características compartilhadas por todas as religiões foram e continuam a ser realizadas. No entanto, essas tentativas sempre mostram seus limites.

Quanto à caracterização da ciência, um primeiro problema diz respeito também à diversidade do que pode ser denominado como tal. Sob esse rótulo há uma variedade imensa de práticas de conhecimento. Em uma primeira aproximação, pode-se pensar em ciências naturais e humanas. Porém, com essa divisão estamos ainda muito longe de avaliar a diversidade que ali se esconde. 

O que se chama ‘ciências naturais’ é composto por um conjunto enorme de disciplinas e subdisciplinas. Além disso, essa aproximação enganosa faz com que muitos acreditem em uma unidade da ciência e que todos os seus campos são regidos por um método único que garante o bom conhecimento científico. Isso não é verdade.

O método experimental, por exemplo, embora amplamente divulgado como marca da ciência, não é característico de todas as áreas das ciências naturais. Nem toda hipótese científica pode ser testada em laboratório.

Hipóteses históricas, que postulam causas passadas para fenômenos observados atualmente, fornecem um bom contraexemplo à ideia de um método universal. Atrelar ciências naturais e método experimental é suprimir das ciências tradições como biologia evolutiva, paleontologia, astronomia e astrofísica e, juntamente, lançar fora teorias robustas, como as teorias do Big Bang, da deriva continental e da evolução.

Outra dificuldade relacionada à caracterização da ciência diz respeito ao chamado ‘problema da demarcação’, ou seja, a tentativa de definir ciência e separá-la de outras formas de conhecimento. A busca por definir ciência tem longa história, e a ascendência do problema da demarcação pode ser rastreada até o filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.). No entanto, todas acabaram por mostrar seus limites e um consenso sobre a melhor definição não foi atingido. Tal situação leva a crer que se deve ter consciência de que a busca de um critério rígido de demarcação da ciência talvez seja uma tarefa estéril.

Respeito, não competição. Já que se torna extremamente difícil caracterizar e definir ciência e religião, pode-se perguntar de onde realmente se origina o conflito. Seguindo o filósofo francês Bruno Latour, pode-se dizer que a principal fonte de desentendimento é um profundo mal-entendido. Segundo se pensa, ciência e religião seriam esferas autônomas da sociedade que, tendo uma estrutura racional única, competiriam por um acesso privilegiado à verdade. No entanto, como Latour argumenta, essas tradições são simplesmente duas formas do que ele chama de “modos de existência” ou “regimes de enunciação”, ou seja, espaços que têm modos específicos de produção e circulação da verdade. Entre outros modos de existência pode-se propor, por exemplo, o direito, a economia, a moral, a política e a administração.

Quando se observam esses regimes de enunciação, percebe-se logo que a justiça, por exemplo, não é produzida do mesmo modo que o conhecimento na química ou na biologia é gerado. As formas de raciocínio e justificação, procedimentos, tomadas de decisão e negociações possíveis são completamente diferentes. Tomemos um exemplo. Espera-se que a lei da gravitação universal do físico inglês Isaac Newton (1643-1727) seja válida universalmente, em todos os tempos e em todos os lugares. Caso sejam observadas situações em que essa lei não funciona, deve-se duvidar dela. A instauração dessa dúvida deve fazer parte da racionalidade da ciência. Por outro lado, nas sociedades modernas existe uma lei que proíbe terminantemente o assassinato. O infrator dessa lei é chamado de ‘assassino’ e deve ser levado a julgamento. Nessas mesmas sociedades, como diz Latour, “existe uma prática, nem tão infrequente, que consiste em despejar bombas, de aviões, sobre pessoas que são chamadas de inimigas”. Os pilotos desses aviões também deveriam ser levados a julgamento. No entanto, o sistema judiciário compreende que esses pilotos agiram conforme o dever. Nesse caso, existem atenuantes que eliminam a responsabilidade dos pilotos. Pode-se dizer, portanto, que, quanto à ação de matar, há dois modos de interpretação e dois modos de raciocinar. Isso não nos leva a duvidar da justiça, pois essa atitude faz parte da racionalidade do direito.

A religião seria, então, um modo de enunciação, com sua racionalidade própria e seus mecanismos específicos de produção da verdade. Segundo Latour, o discurso religioso se caracteriza pela transformação que opera na pessoa que ouve a mensagem. Ele seria muito próximo do discurso amoroso. Assim como a frase “eu te amo” não pode ser julgada por um estado de coisas, como sudorese, ativação de neurônios, dilatação da pupila etc., mas pela transformação que produz em quem ouve a frase, “o discurso religioso deve ser julgado pela qualidade das interações que produz graças à forma como é pronunciado” e não por um conjunto de fatos produzidos dentro da racionalidade científica.

Muitas vezes, diz-se que o discurso religioso lida com o transcendente, o invisível e o distante. No entanto, esses adjetivos não capturam aquilo que é a real marca da religião – a experiência pessoal de transformação. Enquanto um artigo científico informa sobre o mundo, o exemplo de um santo ou uma imagem religiosa transforma a vida da pessoa. Assim, as entidades religiosas – de anjos a deuses – simplesmente executam um tipo de trabalho existencial e o discurso religioso não é um discurso de informação, mas de transformação.


Do ponto de vista de Latour, portanto, o alegado conflito entre ciência e religião se instaurou por uma concepção demasiadamente estreita de racionalidade e pela crença de que todas as esferas da vida humana deveriam estar submetidas a essa racionalidade. O que devemos ter em mente é que ambas são legítimos e ricos modos de existência e nossa atitude não deveria ser a de fortalecer ou abolir as fronteiras, mas rearranjar e reescrever nosso mundo comum de tal maneira que os pontos fortes de ambas sejam respeitados. Nesse sentido, mais do que ressaltar os choques entre as diferentes formas de conhecimento, seria possível perceber a heterogeneidade inerente a nossa compreensão do mundo, como uma orquestra que executa uma peça que só é completa a partir dos mais diversos instrumentos.