14 de agosto de 2013

Por que a ciência é incompetente para avaliar Deus?

Gostaria de, antes de tecer os comentários, deixar claro a que exatamente me refiro quando falo de ciência, pois ciência em sentido amplo e diversificado, ciência (do latim scientia, traduzido por "conhecimento") refere-se a qualquer conhecimento ou prática sistemáticos. Em sentido estrito, ciência refere-se ao sistema de adquirir conhecimento baseado no método científico bem como ao corpo organizado de conhecimento conseguido através de tais pequisas. Deixo claro que me refiro ao segundo ponto de vista, haja vista que considero ciência sinônimo de conhecimento, não de método científico, sobretudo sob a visão empirista como método infalível ou superior de alcançar a verdade.

Imagine que você esteja passeando sozinho pela rua, de repente você presencia um assassinato, no entanto, logo depois de matar, o homicida foge e se livra de todas as provas, corpo, possíveis marcas de sangue ou qualquer outra prova, um crime perfeito, exceto por você ter visto. Depois do incidente, você logo corre até a delegacia mais próxima e relata o incidente, a polícia corre até o local e não encontra prova alguma.

Analisando a situação acima, como você faria para provar cientificamente que ali ocorreu um assassinato?

A resposta, até onde eu sei, é que não tem como você provar, mas isso quer dizer que não há provas? Negativo! HÁ PROVAS SIM! No entanto a ciência não pode captar esse tipo de prova! Agora porque a ciência não pode provar o assassinato ele não aconteceu? Seria uma inverdade? Agora eu pergunto: você quer verdade maior que essa? A de você ter visto um assassinato?

Se não conseguimos produzir provas para incriminar o assassino é incompetência da ciência não sua! Assim, sendo que o contato com Deus é uma questão de epifania, algo do íntimo do Ser, uma experiência inescrutável, como pode alguém se utilizar da ciência para dizer que Deus não existe? É um absurdo intelectual! Por outro lado, ninguém precisa provar Deus com ciência, seria uma afronta para Deus ser captado por um método tão ruim, tão incapaz, quanto o método científico, ainda mais se for de ciência empírica.

Bem, agora alguns leitores, principalmente cientificistas, devem estar ofendidos com tal declaração, mas é a mais pura verdade e o nosso experimento mental acima mostra o quanto a ciência é incompetente para tratar de determinados assuntos, na verdade ela é incompetente para falar sobre a realidade última de qualquer coisa! Segundo Karl Popper¹, a ciência sempre trás uma verdade parcial, Deus é por definição uma verdade final. A ciência fala sobre causas parciais, Deus é uma causa final, sendo assim impossível para a ciência, do modo como é configurada, achar Deus.

Veja o que o filósofo, matemático e logicista Bertrand Russel fala sobre a ciência:

“Todos os argumentos indutivos, em último recurso, se reduzem à seguinte forma: “Se isso é verdade, aquilo é verdade: agora, aquilo é verdade, portanto, isso é verdade”. Esse argumento é, certamente, formalmente falacioso. Suponha que eu dissesse: “Se pão é uma pedra e pedras são alimento, então esse pão me alimentará; agora, esse pão me alimenta; portanto, ele é uma pedra, e pedras são alimento”. Se eu fosse promover tal argumento, certamente pensariam que sou louco, todavia, ele não seria fundamentalmente diferente do argumento sobre qual todas as leis cientificas são baseadas.” 2

Muitos principiantes destreinados em filosofia ou alunos de ensino médio discordariam ou ficariam impactados com essas verdades. Na verdade muitos alegariam que a ciência trás resultados práticos, no entanto, esquecem que produzir resultados práticos é totalmente diferente de produzir verdades, a própria religião produz resultados práticos, quem nunca ouviu falar de alguém que largou o vício ou restaurou o casamento depois de ter seguido a religião cristã, por exemplo? Isso mostra de alguma forma que a religião está com a verdade? De forma nenhuma, resultados práticos não são provas da verdade. Veja o que Karl Popper escreveu sobre Einstein:

            “Ele não poderia, mesmo que todas as predições estivessem corretas, considerá-las como uma teoria verdadeira”.3

Logo, embora a ciência seja útil como forma de alcançar fins práticos, ela não tem autoridade para fazer quaisquer pronunciamentos com respeito à natureza da realidade. Muitos leitores, principalmente cientificistas e ateus, podem agora pensar que esse ceticismo com a sensação e essa visão baixa da ciência são muito extremas, mas quem discordar dessas afirmações deverá primeiro justificar como o conhecimento vem a partir da sensação e como o método científico pode funcionar para descobrir a verdade. Confiar na ciência, mas não apresentar uma justificação racional para ela o que resta então é torcer o nariz, se colocar no seu lugar e fazer nunca mais afirmações do tipo: “Somente o que a ciência diz é verdade!” “O conhecimento científico é superior aos outros tipos de conhecimento!” e por aí vai!

Outro ponto digno de nota é que o modo como a ciência moderna, no seu sentido estrito, trabalha, é impossível de captar Deus porque já parte da pressuposição de que coisas sobrenaturais não existem, seria como avaliar um jogo de basquete com regras de vôlei, as premissas são diferentes e as regras são diferentes, como toda forma de avaliação e investigação e análise de dados, a sua interpretação depende da pressuposição, ou seja, do ponto de vista de que parte a sua lógica, se eu declaro que Deus não existe já de antemão, então é impossível que um método desses possa chegar a Deus.

Não sendo o bastante, ainda tenho mais um ponto a considerar. A ciência trabalha com objetos, para isso ela isola uma parte do que quer analisar, faz uma investigação a respeito daquele recorte, logo a sua verdade parcial só vale para aquele recorte no qual foi analisada, sendo a inferência para o restante apenas um chute! A questão é que Deus não pode virar um objeto, para que algo seja avaliado pela ciência ele precisa ser visto de fora, mas não há como avaliar Deus de fora simplesmente porque estamos dentro Dele, por isso São Paulo fala: "Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração." At 17.28


CONCLUSÃO

Deus se revela ao homem através de uma comunicação com o mais íntimo do Ser, "na divisa da alma com o espírito" uma comunicação com a consciência, “não podemos conhecê-Lo como objeto, ou mesmo como sujeito externo, mas apenas como fundamento ativo da nossa própria autoconsciência, maximamente presente como tal no instante mesmo em que esta, tomando posse de si, se pergunta por Ele, pior ainda, observadores externos de cuja constituição íntima o Deus onipresente tivesse tido a amabilidade de ausentar-se por instantes para que pudessem observá-Lo de fora e testemunhar Sua existência ou inexistência. Esse Deus objetivado não existe nem pode existir, pois é logicamente autocontraditório.”4 Dessa forma, alguém só poderia afirmar categoricamente que Deus não existe, quando depois de um processo de autoconhecimento e uma reflexão dentro da própria consciência, depois de procurar no fundo da sua alma e mesmo assim não encontrar você poderá dizer que Ele não existe, porque Deus, na bíblia, é relatado como uma pessoa que mantém um diálogo muito próximo, íntimo com cada ser humano.


REFERÊNCIAS

1-     Para refletir mais sobre o assunto leia: Popper Selections, editado por Dacid Miller; Princeton University Press, 1985; p.90,91,121
2-     Bertrand Russel, The Problems of Philosofy; Oxford Universit, 1998
3-     Karl Popper, Conjecturas and Refutantions, Harper And How, 1968; p.192
4-     http://www.olavodecarvalho.org/semana/090318dc.html


Por Francisco Tourinho