15 de maio de 2013

Posso usar o Argumento Cosmológico Kalam para validar o ateísmo?


Esse texto vai de encontro ao texto de Quentin Smith, onde o mesmo defende que o argumento cosmológico Kalam, de tão dúbio, pode inclusive servir para provar o ateísmo. Será?
O argumento cosmológico Kalam se configura da seguinte forma:

01-  Tudo que começa a existir tem uma causa.
02-  O Universo começou a existir.
03-  Logo, o Universo tem uma causa.

Para saber mais, leia os textos no blog.

O Universo pode causar a si mesmo?
Para validar seus argumentos, Smith ataca a primeira e terceira premissa de uma vez só afirmando: “o universo causa a si mesmo” e “mais precisamente, argumento que o começo da existência do universo se causa a si mesmo.”

Essa afirmativa é no mínimo ousada, falaremos sobre isso e no decorrer do texto apresentaremos argumentos contrários às premissas que levaram Smith a chegar a essa conclusão. 

Quentin Smith já falou certa vez que o universo veio “do nada, pelo nada e para o nada”1  e exatamente isso que tenta se defender, pois quando dizemos que algo não tem uma causa é o equivalente a dizer que esse algo veio do nada, mas do nada, nada vem, e a experiência, tanto científica como cotidiana nos mostra exatamente o contrário. Não vemos absolutamente nada no Universo, que surge do nada e sem causa, porque somente o Universo pode ser uma exceção? A verdade é que se encontramos uma bola no meio de uma floresta, certamente procuraremos a causa e o porquê dela estar ali. Se aumentarmos o objeto para um carro e depois para um avião, não será o tamanho do objeto que fará com que este não tenha uma causa. Se tudo no Universo tem uma causa, por que logo o Universo não terá uma causa? Isso é arbitrariedade, pois não temos um motivo sequer para descartar uma causa para o Universo. Por que motivo qualquer coisa ou todas as coisas não vieram a existir a partir do nada? Não pode haver no nada algo que constranja o Universo, pois o nada não possui quaisquer propriedades. Nem pode haver algo que constranja o nada, pois não há nada a ser constrangido.

No texto que estamos refutando, especificamente, o que Quentin Smith alega é que o Universo não tem uma causa, porque causou a si mesmo, isso porque sempre existiu, o que vai de encontro às teorias científicas mais bem sucedidas como a do Big Bang.

Poderíamos nos perguntar: Poderia existir “tempo antes do tempo”? O que poderia existir antes do Big Bang, se o tempo e o espaço começaram a partir da grande explosão? Poderíamos imaginar um espaço antes do espaço? Seria auto-contraditório pressupor tempo e espaço a fim de explicar a origem do tempo e do espaço, fisicamente isso é impossível, é como dizer que o ovo trouxe a galinha à existência e a galinha trouxe o ovo à existência, como é flagrantemente auto-contraditório, pela lógica, não pode ser verdade.
Por outro lado, se crermos que há um Criador pessoal do universo, não apenas é logicamente consistente, como também segue a lógica das premissas apresentadas no texto.

O Universo não pode trazer a si mesmo a existência, pois para que pudesse criar a si mesmo o Universo já teria que existir. Ele teria que existir antes de existir! Essa proposta é logicamente incoerente.

Ele também diz: “A minha conclusão é que o argumento cosmológico Kalam, quando se formula de uma maneira consistente com a ciência contemporânea, não é um argumento a favor da existência de Deus, mas um argumento a favor da inexistência de Deus, e um argumento a favor de uma explicação ateia completa do começo da existência do universo.”.

Como assim? “de maneira consistente com a ciência contemporânea?”
Deixarei uma referência sobre isso: “Diz-se que um argumento é algo que convence pessoas razoáveis e uma prova é algo que convence até mesmo quem não é razoável. Com a prova agora em seu devido lugar, os cosmólogos não podem mais se esconder atrás da possibilidade de um universo eterno. Não há como escapar: eles têm que encarar o problema da origem cósmica.”2

Depois disso, ele ataca a segunda premissa, tentando argumentar sobre o começo do universo, assim ele diz: “Segundo a ciência física contemporânea, em particular a cosmologia do Big Bang, não há um primeiro instante t = 0. Se houvesse tal instante primeiro, o universo existiria num estado impossível nesse instante; todo o universo espacial tridimensional ocuparia ou existiria num ponto sem dimensão espacial. Tal estado de coisas seria descrito por proposições matemáticas destituídas de sentido.”
A citação anterior já desbanca a questão do tempo 0. O que Smith quer, na verdade, dizer com isso, é que o universo não teve um início, o que vai de encontro a cosmologia moderna.

Ao falar do começo do tempo, ele usa um argumento de que o tempo é infinito, trabalhando o tempo como uma fita métrica, em que há infinitos pontos em uma reta, assim diz:
“ Eu uso a ideia da cosmologia do Big Bang de que a primeira hora (minuto, segundo, etc.) da existência do universo é semiaberta na direcção da anterioridade. Isto significa que não existe um instante que corresponda ao número zero no intervalo da linha real que contém um infinito (contínuo) de números maiores que zero e menor que um ou um: 0 > x ≤ 1. Se o tempo for contínuo, então não há um primeiro instante x que se suceda imediatamente ao hipotético “primeiro instante», t = 0. Isto porque entre quaisquer dois instantes, há um número infinito de outros instantes. Se “eliminarmos» o instante t = 0 que corresponde a 0 no intervalo 0 > x≤ 1, não encontraremos um dado instante que se siga imediatamente ao instante “eliminado» t = 0. Por exemplo, o instante y que corresponde ao número 0,5 não pode ser o primeiro, dado que entre o número 0 e o número 0,5 há um número 0,25 e um dado instante z que corresponde a 0,25. O mesmo acontece com qualquer outro número no intervalo 0 > x ≤ 1.”

Zenão, filósofo grego que viveu em cerca de 450 a.C., usou o mesmo argumento para mostrar que seria impossível sair de casa e chegar a uma escola, por exemplo. Seguindo o mesmo raciocínio, imagine que sua casa se localiza no ponto A e o seu emprego no ponto Z. Portanto, para sair da sua casa e chegar ao seu emprego, você irá de A até Z. Mas para ir de A até Z, você terá que passar pelo ponto B, que fica na metade do caminho. Agora para andar de B até Z, terá que passar pelo ponto C, que seria a metade da metade do caminho e assim sucessivamente, de forma que você andaria a metade da metade e mais a metade da metade, até nunca chegar ao ponto desejado, no caso, o emprego. Sendo a reta um infinito de pontos, jamais chegaríamos a qualquer lugar, a isso foi chamado de Paradoxo de Zenão. O raciocínio está correto, no entanto é só chegar ao emprego e verá que a experiência mostra que as conclusões estão erradas. Assim, se o raciocínio de Smith estiver correto, nunca teríamos chegado até aqui, pois ainda estaríamos no momento inicial, nos seus infinitos pontos de tempo.


CONCLUSÃO

Ao avaliarmos os principais argumentos de Quentin Smith, notamos claramente que são frágeis, que se utiliza muito da retórica, mas que ignora um fundamento básico da filosofia moderna, que é sua ligação com o real. Muitas vezes ouvimos que em filosofia pode-se provar qualquer coisa, pois essa se utiliza da linguagem e em linguagem tudo se prova. Bem, isso é um fato quando vemos esses argumentos de Smith, mas será que chegar a uma conclusão lógica mostra que o argumento está correto? Por isso a importância da sua relação com o real. O paradoxo de Zenão é um bom exemplo disso!


REFERÊNCIAS

1-      Quentin Smith, Theísm, Atheísm, and Big Bang, Cosmology. Oxford: Clarendon Press, 1993, p.135
2-      Alexander Vilenkin, Many Wolds in One. New York: Hill and Wang, 2006, p. 176
3-      Citações de Quentin Smith disponíveis neste link: http://www.4shared.com/office/_fQmUY71/Argumentos_Cosmolgicos_Kalam_a.html

Por Francisco Tourinho

5 de maio de 2013

Nega Deus a Teoria da Evolução?

Um dos erros frequentes, que como teólogo tenho visto no meio religioso, principalmente de alguns meios evangélicos, é que a Teoria da Evolução é incompatível com a crença religiosa em Deus, quanto mais o Deus cristão. Isso é um ledo engano. O que tenho visto, depois de uma leitura acurada sobre o assunto, é que a Teoria da Evolução pode ser um argumento mais poderoso ainda para a existência de Deus do que o argumento do Criacionismo Científico ou do Design Inteligente. Não é de admirar que apologetas como William Lane Craig e o geneticista Francis Collins, sejam Evolucionistas Teístas, ou seja, acreditam que a evolução foi o mecanismo como Deus usou para criar as coisas, sei que muitos religiosos não concordam comigo, mas espero que leiam o texto antes de fazerem alguns comentários.

G. F. Wright ,"A evolução não pode fornecer evidência que afaste da natureza o desígnio. Ela pode retrocedê-lo a um ponto mais remoto da entrada, aumentando a nossa admiração na força do Criador no cumprimento dos desígnios ulteriores por processos diferentes".

O problema é dos dois lados, de uma lado temos teólogos que estão fechados a novas verdades, como criacionistas da Terra Jovem, por exemplo, e do outro, filósofos meia-boca, como Richard Dawkins, que querem usar a evolução para validar o ateísmo, como se a evolução fosse uma forma de ateísmo e sob ela tudo pudesse ser explicado, como ele mesmo diz: "a toda-poderosa seleção natural".

A evolução é o método de Deus. Ela se refere ao como, não ao por que, dos fenômenos e, por isso, não inconsistente com o desígnio, porém é a sua nova é mais elevada ilustração. Como diria HENRY WARD BEECHER¹: "No atacado, o desígnio é maior que no varejo." "FRANCES POWER COBBE²: 'É singular o fato de que, sempre que achamos como se faz uma coisa, nossa primeira conclusão parece indicar que não foi Deus que fez'. Por que iríamos dizer: Quanto maior é a lei menor Deus? O teísta faz referências aos fenômenos como uma causa que se conhece a si mesma e sabe-se que ela está fazendo; o ateísta faz referência a eles como uma força de que nada se conhece e não se sabe o que está fazendo."

Outro ponto que devemos levar em conta é que a premissa do desígnio se expressa em um "princípio operante de toda a ciência, a saber, que todas as coisas têm seu uso, que a ordem permeia o universo e que o métodos da natureza são racionais. Evidências disso aparecem na correlação dos elementos químicos uns com os outros; na adequação do mundo inanimado que é a base e suporte da vida; nas formas típicas e na unidade do plano que aparece na criação orgânica; na existência e cooperação das leis naturais; na ordem cósmica e compensações. Como diria KANT: "O anatomista deve admitir que nada no homem existe em vão."³

De qualquer forma, raciocine comigo. Imagine que pudéssemos criar um carro, contendo um processo de auto-reparo para compensar o desgaste, aumentando seu tamanho, soltando de si, com relativa frequência, pedaços de latão ou de ferro com capacidade de desenvolver-se passo a passo em outros carros capazes de correr e se reproduzir, por sua vez, em novos carros. Imagina como é um projeto maravilhoso, que diante uma ancestralidade comum, alguém colocar em um único DNA, toda a capacidade para gerar toda a diversidade de vida que temos hoje, isso é magnífico! É extremamente poderoso e inteligente! Como alguém não consegue perceber isso?  É claro que estou partindo da premissa de que a evolução seja verdadeira, mas supondo que seja, o modo como Deus resolve fazer para criar as coisas é surpreendente.


CONCLUSÃO

O erro é avaliar o ponto de vista evolutivo somente sob uma ótica mecânica, pois embora a Teoria da Evolução se proponha a dizer como foram feitas as coisas, o que não quer dizer que conhecendo o processo não foi Deus que fez, ela também não responde o porquê das coisas. "A casa não requer nenhum arquiteto porque é construída por pedreiros e por carpinteiros? A lei natural sem Deus não é mais do que uma luva sem mão e tudo que se faz com a mão de Deus calçada na natureza, não é luva que faz, mas a mão. A evolução não é uma força; é um processo; não é um operador, mas um método de operação. Um livro não é escrito pelas leis de soletração e gramática, mas de acordo com tais leis".4

Referências:

1- STRONG, A.H.Teologia Sistemática. Ed. rev. e amp. São Paulo: Hagnos.2007. pag. 150
2- Ibid 1
3- Ibid 1 pág. 151
4- Ibid 1


Por Francisco Tourinho

Tenho razões para acreditar que Jesus existiu?(parte 2)

Vídeo onde o filósofo Mario Sergio Cortella, fala sobre o Jesus histórico e divino, com participação de outros especialistas da área de história e arqueologia. O vídeo é muito imparcial e destrói de vez a ideia de que Jesus não existiu. Para um melhor entendimento do vídeo, sugiro a leitura da primeira parte desse tópico.







Por Francisco Tourinho