22 de novembro de 2011

Ensino sobre dízimo!


    
         Nesses dias, nos abismamos com tantos escândalos promovidos por aqueles que se autodenominam homens de Deus.  Como o povo se perde por falta de conhecimento, venho, nesse post, falar um pouco sobre a prática de pedir dinheiro dentro de nossas igrejas.

         A prática da contribuição financeira dentro de uma igreja não é de um todo absurdo, em toda instituição, associação ou conjunto organizado de pessoas, precisa de dinheiro. Pessoas que são filiadas à federações, clubes, sociedades, conselhos e outros, contribuem anualmente ou mensalmente com uma parcela de suas finanças, logo, a igreja como instituição organizada, devidamente legalizada junto ao governo, poderá e deverá receber doações de seus associados. 

         Agora no tocante a questões teológicas, temos visto certas discrepâncias com os ensinamentos da Bíblia.
         Os ensinamentos da Bíblia são claros com relação ao dinheiro na casa do Senhor, vamos aos principais erros:

  1. Afirmar que sua contribuição deve ser 10%. Esse ensino é amplamente aceito no meio das congregações cristãs, mas carece de um ensino mais claro nas escrituras.
Esse ensino é baseado na premissa de que a palavra dízimo significa 10% de tudo que o cristão ganha, nessa doutrina encontramos um problema básico, o dízimo era uma prática antigo-testamentária, a baliza do cristão hoje é o Novo Testamento, nesse não há referências para a motivação da entrega do dízimo como 10%, pelo contrário, as referências a contribuição são para motivar a dar segundo o que é proposto no seu coração, voluntariamente, segundo as suas posses, vejamos os seguintes textos:

“Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama quem dá com alegria.” II Co 9.7

“Porque eles, testemunho eu, na medida de suas posses e mesmo acima delas, se mostraram voluntários, pedindo-nos com muitos rogos, a graça de participarem da assistência aos santos.” II Co 8.3,4

         Certamente não encontramos nada que possa afirmar que estaríamos pecando se não doarmos 10% do dinheiro dado por Deus a nós.

Partindo desse ponto, temos visto coisas piores, como cobrar taxas fixas de 911,00 reais, valor do aluguel da casa, fora os 10% já dados, o irmão pode até doar todo esse dinheiro, poderá inclusive doar tudo se quiser, mas não estará pecando se não contribuir com a taxa especificada, sendo esta a cargo do seu próprio coração.

2. Não prestação de contas, por parte dos líderes, das receitas e despesas da igreja Essa tem sido uma grande arma para encobrir os roubos e desvios dentro da casa do Senhor. A Bíblia afirma que somos filhos do dia (I Ts 5.5), ou seja, não há nada que devamos fazer nas sombras, como que precisássemos fazer escondido, se o pastor nada deve, então não terá problemas em prestar contas. Vejamos o seguinte texto:

No primeiro dia da semana cada um de vós ponha de parte o que puder, conforme tiver prosperado, guardando-o, para que se não façam coletas quando eu chegar.
E, quando tiver chegado, mandarei os que por carta aprovardes para levar a vossa dádiva a Jerusalém; I Co 16. 2,3

         O Ap. Paulo afirma no texto acima que enviará um relatório, para que assim, pudessem ser levadas as dádivas (finanças) a Jerusalém.

    3.  Usar as ofertas para juntar riquezas para si. Talvez esse seja, depois do individualismo, o maior câncer da Igreja na atualidade, homens cheios de si, fanáticos por lucro que caem na corrupção. Vejamos os textos:

“...disputas de homens corruptos de entendimento, e privados da verdade, cuidando que a piedade é fonte de lucro; Ora , os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição.” I Tm 6.5,9
 
“Ai deles! porque foram pelo caminho de Caim, e por amor do lucro se atiraram ao erro de Balaão, e pereceram na rebelião de Coré.” Jd.1.11

      4. Usar o texto de Malaquias 3.10 como forma de doutrinação. A Igreja cristã, não se doutrina por textos antigo-testamentários, estes fazem parte da antiga aliança, esse texto se refere aos Judeus do tempo da lei, se vivemos na graça, ao usarmos a lei estamos desprezando a graça e pisando na cruz e no sacrifício de Cristo.

sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, mas sim, pela fé em Cristo Jesus, temos também crido em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo, e não por obras da lei; pois por obras da lei nenhuma carne será justificada.” Gl. 2.16

        Vemos através de uma análise cuidadosa de textos bíblicos, que a prática do dízimo, como é feita por muitas congregações, não está de acordo com o ensino das escrituras, no entanto não podemos usar os termos “voluntariamente” e “sentir no coração”, como desculpas para ofertar restos ao Senhor, haja vista que o texto de II Co 8.3,4 afirma que os cristãos da Igreja primitiva ofertavam, à vezes, até acima de suas posses, vejamos novamente:

“Porque eles, testemunho eu, na medida de suas posses e mesmo acima delas, se mostraram voluntários, pedindo-nos com muitos rogos, a graça de participarem da assistência aos santos.” II Co 8.3,4

Simples assim.
Graça e paz, amados!

6 de novembro de 2011

8º Congresso Brasileiro de Teologia Vida Nova

Congresso


A 8ª edição do Congresso traz o tema Apologética contemporânea para um mundo de incertezas. Os palestrantes considerarão e rebaterão as críticas e dúvidas que nossa cultura lança contra a fé cristã e mostrarão a razoabilidade e confiabilidade do cristianismo. Teremos a presença especial de William Lane Craig, um dos mais destacados apologetas da atualidade. Sua experiência internacional em debates e palestras, nos mais diversos meios acadêmicos, contribuirá para o alto nível de nossas discussões. Junto a ele, estão confirmados Augustus Nicodemus Lopes, Carlos Osvaldo Pinto, Davi Charles, Jonas Madureira, Marcos Eberlin, e Guilherme de Carvalho. O dr. Russell Shedd fará as Devocionais e o Stênio Marcius o louvor. 
Abaixo um breve currículo dos palestrantes:
William Lane Craig

William Lane Craig

É doutor em filosofia pela Universidade de Birmingham, na Inglaterra, e em teologia pela Universidade de Munique, na Alemanha. Atualmente leciona filosofia na Talbot School of Theology, na Califórnia, Estados Unidos. É conferencista internacional e autor de dezenas de artigos e livros no campo da filosofia e da apologética.

Plenárias
O absurdo da vida sem Deus
Quem precisa de apologética?
As evidências a favor da ressurreição de Jesus

Seminários
O delírio do neoateísmo


Augustus Nicodemus

Augustus Nicodemus

Graduado em teologia pelo Seminário Presbiteriano do Norte, em Recife, tem mestrado em Novo Testamento pela Universidade Reformada de Potchefstroom (África do Sul) e doutorado em interpretação bíblica pelo Seminário Teológico de Westminster (EUA), com estudos no Seminário Reformado de Kampen, Holanda. É chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, e pastor na Igreja Presbiteriana de Santo Amaro.

Plenárias:
A confiabilidade e autoridade das Escrituras



Marcos Eberlin

Marcos Eberlin

Com graduação, mestrado e doutorado em química pela Universidade Estadual de Campinas e pós-doutorado no Laboratório Aston de Espectrometria de Massas da Universidade de Purdue, EUA, é professor titular da Universidade Estadual de Campinas, membro da Academia Brasileira de Ciências e comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico. É também vice-presidente da Sociedade Brasileira (BrMASS) e Internacional (IMSS) de Espectrometria de Massas, e membro do Núcleo Brasileiro de Design inteligente (NBDI). Já publicou mais de 450 artigos científicos com mais de 6 mil citações. Coordena uma equipe de cerca de 40 pesquisadores do Laboratório ThoMSon, no Instituto de Química da UNICAMP, e é hoje um dos cientistas brasileiros de maior destaque internacional e produtividade (Prêmio Scopus-Capes 2008).

Plenárias
Evolução ou Design Inteligente? A ciência e sua maior incerteza


Davi Charles Gomes

Davi Charles Gomes

Graduado pelo Seminário Episcopal Reformado, Filadélfia, EUA, no qual também obteve seu mestrado (M.Div., cum laude). Doutorou-se em apologética no Seminário Teológico Westminster, com estudos na Universidade de Geneva, Suíça, e no Seminário Teológico Luterano da Filadélfia. Tem ainda graduação em administração pela Universidade de Massachusetts, em Boston, EUA. É professor titular de teologia filosófica e diretor do Centro Presbiteriano de Pós-Gradução Andrew Jumper. Pastoreia a Igreja Presbiteriana Paulistana.

Plenárias
O choque de cosmovisões: os atuais rivais do cristianismo

  • Seminários


Carlos Osvaldo Pinto

Carlos Osvaldo Pinto

Formado em teologia pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida, tem mestrado em Antigo Testamento e doutorado em hermenêutica e exposição bíblica pelo Seminário Teológico de Dallas (EUA). Foi por quase duas décadas reitor do SBPV, onde leciona desde 1979. Atualmente, é professor, coordenador do programa de estudos teológicos avançados, e também chanceler da Organização Palavra da Vida. Autor de Estudos do Vocabulário do Novo Testamento, Fundamentos para exegese do Antigo Testamento e Fundamentos para exegese do Novo Testamento.

Seminário
O mal e o sofrimento humano: uma perspectiva bíblico-teológica




Guilherme de Carvalho

Guilherme de Carvalho

Mestre em teologia pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo e mestre em ciências da religião pela Universidade Metodista de São Paulo, é obreiro do L’Abri Brasil e presidente-fundador da Associação Kuyper para Estudos Transdisciplinares. É pastor da Igreja Esperança em Belo Horizonte.

Seminário
Ciência e fé cristã




Jonas Madureira

Jonas Madureira

É bacharel em teologia pelo Betel Brasileiro e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie; bacharel e mestre em filosofia pela PUC-SP e doutorando em filosofia pela USP. É professor de filosofia na Faculdade Teológica Batista de São Paulo, no Servo de Cristo e no Betel Brasileiro. Autor do livro Filosofia do Curso Vida Nova de Teologia básica.

Seminário
Apologética no cotidiano pastoral
  • Devocionais


Russell P. Shedd

Russell P. Shedd

É doutor em Novo Testamento pela Universidade de Edimburgo, Escócia. Foi um dos fundadores de Edições Vida Nova, meio século atrás e, atualmente, é consultor da Shedd Publicações. Há várias décadas trabalha como missionário no Brasil, tendo por muito tempo lecionado na Faculdade Teológica Batista de São Paulo. É respeitado no Brasil e exterior como conferencista, falando em congressos, igrejas, seminários e faculdades de teologia. Casado com dona Patrícia há 50 anos, tem 5 filhos e 13 netos.
  • Louvor


Stênio Marcius

Stênio Marcius

Com formação em teologia pelo Seminário Presbiteriano Conservador de São Paulo, é músico com mais de quatrocentas composições e músicas gravadas por vários nomes da música evangélica brasileira. Tem quatro CDs gravados e, entre suas canções mais conhecidas, estão: “O Tapeceiro”, “Memórias”, “Fim de tarde no portão”, “Alguém como eu” e “O Sonho”. Desenvolve seu ministério através da música visitando igrejas e comunidades. Mora em São Paulo e é membro da Igreja Presbiteriana de Aldeia da Serra.

Eu vou, se Deus quiser, e vc?


5 de novembro de 2011

494 Anos de Reforma, Martinho Lutero e as 95 Teses!



            Em homenagem aos 494 anos da reforma protestante, resolvi mudar só por esse post  a temática abordada comumente no blog. O nosso blog trata em geral das reflexões sobre a origem da vida, mas hoje falarei sobre uma personalidade que mudou a história: Martinho Lutero.

            Defensor da idéia de que o perdão divino é um dom a ser aceito e não um prêmio a ser conquistado, Martinho Lutero liderou a Reforma, movimento religioso que, nas primeiras décadas do século XVI, levou à fundação do protestantismo.

            Excomungado da Igreja Católica Apostólica Romana, declarado herege e um fugitivo em 1521, a “santa” Igreja Católica chegou a declarar que não sofreria qualquer pena quem matasse Lutero.
           
            Aqui estarão listadas as 95 teses de Lutero, haja vista que a maioria dos protestantes nunca a leu, pois os mesmos desconhecem suas origens. As teses terão um breve comentário no rodapé para facilitar o entendimento. A seguir as 95 teses,  retiradas do site: http://www.espacoacademico.com.br/034/34tc_lutero.htm

            "Com um desejo ardente de trazer a verdade à luz, as seguintes teses serão defendidas em Wittenberg sob a presidência do Rev. Frei Martinho Lutero, Mestre de Artes, Mestre de Sagrada Teologia e Professor oficial da mesma. Ele, portanto, pede que todos os que não puderem estar presentes e disputar com ele verbalmente, façam-no por escrito.

Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Amém.
1. Ao dizer: "Fazei penitência", etc. [Mt 4.17], o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.

2. Esta penitência não pode ser entendida como penitência sacramental (isto é, da confissão e satisfação celebrada pelo ministério dos sacerdotes).

3. No entanto, ela não se refere apenas a uma penitência interior; sim, a penitência interior seria nula se, externamente, não produzisse toda sorte de mortificação da carne.

4. Por conseqüência, a pena perdura enquanto persiste o ódio de si mesmo (isto é a verdadeira penitência interior), ou seja, até a entrada do reino dos céus.

5. O papa não quer nem pode dispensar de quaisquer penas senão daquelas que impôs por decisão própria ou dos cânones.

6. O papa não tem o poder de perdoar culpa a não ser declarando ou confirmando que ela foi perdoada por Deus; ou, certamente, perdoados os casos que lhe são reservados. Se ele deixasse de observar essas limitações, a culpa permaneceria.

7. Deus não perdoa a culpa de qualquer pessoa sem, ao mesmo tempo, sujeitá-la, em tudo humilhada, ao sacerdote, seu vigário.

8. Os cânones penitenciais são impostos apenas aos vivos; segundo os mesmos cânones, nada deve ser imposto aos moribundos.

9. Por isso, o Espírito Santo nos beneficia através do papa quando este, em seus decretos, sempre exclui a circunstância da morte e da necessidade.

10. Agem mal e sem conhecimento de causa aqueles sacerdotes que reservam aos moribundos penitências canônicas para o purgatório.

11. Essa cizânia de transformar a pena canônica em pena do purgatório parece ter sido semeada enquanto os bispos certamente dormiam.

12. Antigamente se impunham as penas canônicas não depois, mas antes da absolvição, como verificação da verdadeira contrição.

13. Através da morte, os moribundos pagam tudo e já estão mortos para as leis canônicas, tendo, por direito, isenção das mesmas.

14. Saúde ou amor imperfeito no moribundo necessariamente traz consigo grande temor, e tanto mais quanto menor for o amor.

15. Este temor e horror por si sós já bastam (para não falar de outras coisas) para produzir a pena do purgatório, uma vez que estão próximos do horror do desespero.

16. Inferno, purgatório e céu parecem diferir da mesma forma que o desespero, o semidesespero e a segurança.

17. Parece necessário, para as almas no purgatório, que o horror devesse diminuir à medida que o amor crescesse.

18. Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos racionais nem da Escritura, que elas se encontrem fora do estado de mérito ou de crescimento no amor.

19. Também parece não ter sido provado que as almas no purgatório estejam certas de sua bem-aventurança, ao menos não todas, mesmo que nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza disso.

20. Portanto, por remissão plena de todas as penas, o papa não entende simplesmente todas, mas somente aquelas que ele mesmo impôs.

21. Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do papa.

22. Com efeito, ele não dispensa as almas no purgatório de uma única pena que, segundo os cânones, elas deveriam ter pago nesta vida.

23. Se é que se pode dar algum perdão de todas as penas a alguém, ele, certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto é, pouquíssimos.

24. Por isso, a maior parte do povo está sendo necessariamente ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena.

25. O mesmo poder que o papa tem sobre o purgatório de modo geral, qualquer bispo e cura tem em sua diocese e paróquia em particular.

26. O papa faz muito bem ao dar remissão às almas não pelo poder das chaves (que ele não tem), mas por meio de intercessão.

27. Pregam doutrina mundana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando [do purgatório para o céu].

28. Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa[1], pode aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de Deus.

29. E quem é que sabe se todas as almas no purgatório querem ser resgatadas, como na história contada a respeito de São Severino e São Pascoal?

30. Ninguém tem certeza da veracidade de sua contrição, muito menos de haver conseguido plena remissão.

31. Tão raro como quem é penitente de verdade é quem adquire autenticamente as indulgências, ou seja, é raríssimo.

32. Serão condenados em eternidade, juntamente com seus mestres, aqueles que se julgam seguros de sua salvação através de carta de indulgência.

33. Deve-se ter muita cautela com aqueles que dizem serem as indulgências do papa aquela inestimável dádiva de Deus através da qual a pessoa é reconciliada com Ele.

34. Pois aquelas graças das indulgências se referem somente às penas de satisfação sacramental, determinadas por seres humanos.

35. Os que ensinam que a contrição não é necessária para obter redenção ou indulgência, estão pregando doutrinas incompatíveis com o cristão.

36. Qualquer cristão que está verdadeiramente contrito tem remissão plena tanto da pena como da culpa, que são suas dívidas, mesmo sem uma carta de indulgência.

37. Qualquer cristão verdadeiro, vivo ou morto, participa de todos os benefícios de Cristo e da Igreja, que são dons de Deus, mesmo sem carta de indulgência.

38. Contudo, o perdão distribuído pelo papa não deve ser desprezado, pois – como disse – é uma declaração da remissão divina[2].

39. Até mesmo para os mais doutos teólogos é dificílimo exaltar simultaneamente perante o povo a liberalidade de indulgências e a verdadeira contrição.[3]

40. A verdadeira contrição procura e ama as penas, ao passo que a abundância das indulgências as afrouxa e faz odiá-las, ou pelo menos dá ocasião para tanto.[4]

41. Deve-se pregar com muita cautela sobre as indulgências apostólicas, para que o povo não as julgue erroneamente como preferíveis às demais boas obras do amor.[5]

42. Deve-se ensinar aos cristãos que não é pensamento do papa que a compra de indulgências possa, de alguma forma, ser comparada com as obras de misericórdia.

43. Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se comprassem indulgências.[6]

44. Ocorre que através da obra de amor cresce o amor e a pessoa se torna melhor, ao passo que com as indulgências ela não se torna melhor, mas apenas mais livre da pena.

45. Deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um carente e o negligencia para gastar com indulgências obtém para si não as indulgências do papa, mas a ira de Deus.

46. Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem bens em abundância, devem conservar o que é necessário para sua casa e de forma alguma desperdiçar dinheiro com indulgência.

47. Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de indulgências é livre e não constitui obrigação.

48. Deve ensinar-se aos cristãos que, ao conceder perdões, o papa tem mais desejo (assim como tem mais necessidade) de oração devota em seu favor do que do dinheiro que se está pronto a pagar.

49. Deve-se ensinar aos cristãos que as indulgências do papa são úteis se não depositam sua confiança nelas, porém, extremamente prejudiciais se perdem o temor de Deus por causa delas.

50. Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa soubesse das exações dos pregadores de indulgências, preferiria reduzir a cinzas a Basílica de S. Pedro a edificá-la com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.

51. Deve-se ensinar aos cristãos que o papa estaria disposto – como é seu dever – a dar do seu dinheiro àqueles muitos de quem alguns pregadores de indulgências extorquem ardilosamente o dinheiro, mesmo que para isto fosse necessário vender a Basílica de S. Pedro.

52. Vã é a confiança na salvação por meio de cartas de indulgências, mesmo que o comissário ou até mesmo o próprio papa desse sua alma como garantia pelas mesmas.

53. São inimigos de Cristo e do Papa aqueles que, por causa da pregação de indulgências, fazem calar por inteiro a palavra de Deus nas demais igrejas.

54. Ofende-se a palavra de Deus quando, em um mesmo sermão, se dedica tanto ou mais tempo às indulgências do que a ela.

55. A atitude do Papa necessariamente é: se as indulgências (que são o menos importante) são celebradas com um toque de sino, uma procissão e uma cerimônia, o Evangelho (que é o mais importante) deve ser anunciado com uma centena de sinos, procissões e cerimônias.

56. Os tesouros da Igreja, a partir dos quais o papa concede as indulgências, não são suficientemente mencionados nem conhecidos entre o povo de Cristo.

57. É evidente que eles, certamente, não são de natureza temporal, visto que muitos pregadores não os distribuem tão facilmente, mas apenas os ajuntam.

58. Eles tampouco são os méritos de Cristo e dos santos, pois estes sempre operam, sem o papa, a graça do ser humano interior e a cruz, a morte e o inferno do ser humano exterior.

59. S. Lourenço disse que os pobres da Igreja são os tesouros da mesma, empregando, no entanto, a palavra como era usada em sua época.

60. É sem temeridade que dizemos que as chaves da Igreja, que foram proporcionadas pelo mérito de Cristo, constituem estes tesouros.

61. Pois está claro que, para a remissão das penas e dos casos especiais, o poder do papa por si só é suficiente.[7]

62. O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.

63. Mas este tesouro é certamente o mais odiado, pois faz com que os primeiros sejam os últimos.

64. Em contrapartida, o tesouro das indulgências é certamente o mais benquisto, pois faz dos últimos os primeiros.

65. Portanto, os tesouros do Evangelho são as redes com que outrora se pescavam homens possuidores de riquezas.

66. Os tesouros das indulgências, por sua vez, são as redes com que hoje se pesca a riqueza dos homens.

67. As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como as maiores graças realmente podem ser entendidas como tais, na medida em que dão boa renda.

68. Entretanto, na verdade, elas são as graças mais ínfimas em comparação com a graça de Deus e a piedade da cruz.

69. Os bispos e curas têm a obrigação de admitir com toda a reverência os comissários de indulgências apostólicas.

70. Têm, porém, a obrigação ainda maior de observar com os dois olhos e atentar com ambos os ouvidos para que esses comissários não preguem os seus próprios sonhos em lugar do que lhes foi incumbidos pelo papa.

71. Seja excomungado e amaldiçoado quem falar contra a verdade das indulgências apostólicas.

72. Seja bendito, porém, quem ficar alerta contra a devassidão e licenciosidade das palavras de um pregador de indulgências.

73. Assim como o papa, com razão, fulmina aqueles que, de qualquer forma, procuram defraudar o comércio de indulgências,

74. Muito mais deseja fulminar aqueles que, a pretexto das indulgências, procuram fraudar a santa caridade e verdade.

75. A opinião de que as indulgências papais são tão eficazes a ponto de poderem absolver um homem mesmo que tivesse violentado a mãe de Deus, caso isso fosse possível, é loucura.

76. Afirmamos, pelo contrário, que as indulgências papais não podem anular sequer o menor dos pecados venais no que se refere à sua culpa.

77. A afirmação de que nem mesmo São Pedro, caso fosse o papa atualmente, poderia conceder maiores graças é blasfêmia contra São Pedro e o Papa.

78. Dizemos contra isto que qualquer papa, mesmo São Pedro, tem maiores graças que essas, a saber, o Evangelho, as virtudes, as graças da administração (ou da cura), etc., como está escrito em I.Coríntios XII.

79. É blasfêmia dizer que a cruz com as armas do papa, insigneamente erguida, equivale à cruz de Cristo.

80. Terão que prestar contas os bispos, curas e teólogos que permitem que semelhantes sermões sejam difundidos entre o povo.

81. Essa licenciosa pregação de indulgências faz com que não seja fácil nem para os homens doutos defender a dignidade do papa contra calúnias ou questões, sem dúvida argutas, dos leigos.

82. Por exemplo: Por que o papa não esvazia o purgatório por causa do santíssimo amor e da extrema necessidade das almas – o que seria a mais justa de todas as causas –, se redime um número infinito de almas por causa do funestíssimo dinheiro para a construção da basílica – que é uma causa tão insignificante?

83. Do mesmo modo: Por que se mantêm as exéquias e os aniversários dos falecidos e por que ele não restitui ou permite que se recebam de volta as doações efetuadas em favor deles, visto que já não é justo orar pelos redimidos?

84. Do mesmo modo: Que nova piedade de Deus e do papa é essa que, por causa do dinheiro, permite ao ímpio e inimigo redimir uma alma piedosa e amiga de Deus, mas não a redime por causa da necessidade da mesma alma piedosa e dileta por amor gratuito?

85. Do mesmo modo: Por que os cânones penitenciais – de fato e por desuso já há muito revogados e mortos – ainda assim são redimidos com dinheiro, pela concessão de indulgências, como se ainda estivessem em pleno vigor?


86. Do mesmo modo: Por que o papa, cuja fortuna hoje é maior do que a dos ricos mais crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta uma basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis?

87. Do mesmo modo: O que é que o papa perdoa e concede àqueles que, pela contrição perfeita, têm direito à plena remissão e participação?

88. Do mesmo modo: Que benefício maior se poderia proporcionar à Igreja do que se o papa, assim como agora o faz uma vez, da mesma forma concedesse essas remissões e participações cem vezes ao dia a qualquer dos fiéis?

89. Já que, com as indulgências, o papa procura mais a salvação das almas do que o dinheiro, por que suspende as cartas e indulgências, outrora já concedidas, se são igualmente eficazes?

90. Reprimir esses argumentos muito perspicazes dos leigos somente pela força, sem refutá-los apresentando razões, significa expor a Igreja e o papa à zombaria dos inimigos e fazer os cristãos infelizes.

91. Se, portanto, as indulgências fossem pregadas em conformidade com o espírito e a opinião do papa, todas essas objeções poderiam ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido.

92. Portanto, fora com todos esses profetas que dizem ao povo de Cristo "Paz, paz!" sem que haja paz!

93. Que prosperem todos os profetas que dizem ao povo de Cristo "Cruz! Cruz!" sem que haja cruz![8]


94. Devem-se exortar os cristãos a que se esforcem por seguir a Cristo, seu cabeça, através das penas, da morte e do inferno.

95. E que confiem entrar no céu antes passando por muitas tribulações do que por meio da confiança da paz.
[1517 A.D.]

Notas Finais
  • [1] Lutero refere-se à caixa de coleta de rendas oriundas da venda de “cartas de indulgência”. (Vide Tese 36)
  • [2] Observa neste trecho o quanto a postura de Lutero não é cismática, mas reformadora, pois reconhecia, pelo menos em 1517, o papel do Papa como intercessor.(Vide Teses 61, 69, 70, 71, 72, 73, 74, 75, 76, 77, 78, 79, 80, 81, 83, 84, 87, 89, 90, 91)
  • [3] No século XVII, Gregório da Mattos Guerra(1633-1696) voltaria, com sarcasmos, a este tema em seu poema-missiva “A Jesus Cristo Nosso Senhor”: Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado./Da vossa clemência me despido,/porque, quanto mais tenho delinqüido,/vos tenho a perdoar mais empenhado./…/Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada./ Cobrai-a e não queirais, pastor divino,/perder na vossa ovelha a vossa glória. (MATOS, Gregório de. Poemas Escolhidos. São Paulo, Cultrix, 1976. p. 297).(Vide Teses 44, 49, 67, 76, 84, 93)
  • [4] Lutero é marcadamente agostiniano e, por isso, insiste no valor pedagógico do castigo, na utilidade do sofrimento, no recurso necessário aos métodos repressivos – tanto em matéria de fé quanto de política.(Vide Teses 94, 95)
  • [5] Em 1525, Lutero afirmaria abertamente que condenada estaria toda a obra que não nascesse do amor, no sentido da “charitas” de Cristo, o que significava que a “obra” concebida como “cálculo de indulgência” não teria o menor efeito, mesmo porque não caberia ao homem julgar a fé de outrem, pois somente Deus conheceria o que se passava no coração dos homens. O efeito disso, diferentemente do tom ainda conciliador de 1517, era tornar a instituição eclesiástica completamente desnecessária para reger o “mundo interior” do cristão.(Vide Teses 47, 48, 49, 51, 52, 53, 55, 57, 58, 65, 66)
  • [6] Esta tese tem dois alvos: em âmbito geral, a elite nobre e não-nobre alemã que desperdiçava recursos em encomendas de missas ou patrocínio de igrejas às custas da miséria ou exação de seus subordinados; em âmbito particular, o Cardeal Alberto de Brandeburgo(1490-1545). Para ter sua confirmação para o Arcebispado de Mayence em 1514, Alberto tinha que conseguir uma soma considerável e enviá-la para Roma. Para tanto, ele fez um empréstimo e o assentou, com autorização papal, sobre a arrecadação das indulgências vinculadas à construção da Basílica de São Pedro em Roma. Segundo o acordo entre Alberto e o Papado, metade do arrecadado iria para a construção da basílica e a outra metade para Alberto quitar suas dívidas provenientes da investidura no arcebispado. No final das contas, o Papa teria o conjunto das rendas de Brandeburgo vinculadas às indulgências.(Vide Teses 46, 47, 48, 50, 51, 52, 55, 56, 59, 65, 66, 82, 83, 85, 86, 88)
  • [7] Vide Tese 38.
  • [8] Com tal imprecação, Lutero espera uma reforma moral da Igreja e seu rebanho, o que significava a interiorização da fé, da contrição e da “charitas”.(Supra notas “3” e “5”)"