31 de março de 2018

Se a interpretação das Escrituras é livre, como saber então se estamos certos?



INTRODUÇÃO

A acusação de subjetivismo é talvez a acusação mais corriqueira dos Católicos Romanos em relação aos protestantes, a pergunta é como ter uma objetividade na interpretação das Escrituras se estamos sujeitos a interpretação de cada um, ou seja, sem um padrão que norteie essa interpretação. A proposta Romana é que o magistério deve interpretar as Escrituras, e somente ele deve interpretar, para garantir uma interpretação correta, nesse caso, nós teríamos uma sola magisterium, enquanto os protestantes teriam uma uma sola scriptura.

AS DIFERENÇAS

A grande diferença entre a tradição católica romana e a tradição protestante, é que enquanto a infalibilidade da primeira está no magistério e na pessoa do Papa, a infalibilidade do segundo está nas Escrituras. Isso faz uma grande diferença, uma vez que quando a infalibilidade está no magistério da Igreja, então o ensino magisterial deve ser encontrado nas Escrituras, ou seja, o magistério elabora um ensino, então somente depois eles encaixam esse ensinamento nas Escrituras, virando um malabarismo de técnicas exegéticas sem critério algum, no intuito de achar aquele ensinamento nas Escrituras, como por exemplo, a Assunção de Maria. A Assunção de Maria é endossada pela técnica do silêncio, ou seja, se a Escritura nada fala, segue-se então que essa doutrina pode ser verdadeira e essa lacuna pode ser preenchida pela Igreja. Note que isso daria espaço para se criar praticamente todo tipo de doutrina possível, eu poderia dizer que Jesus morou na Índia no seu tempo de adolescência e que pregou por lá (sim, tem gente que defende isso), já que as Escrituras silenciam sobre isso, e se, caso o magistério confirmasse, isso seria uma verdade inquestionável, mesmo sem termos a certeza de onde foi que Jesus passou sua infância. É interessante notar, que uma vez que o magistério decide o que é ou não verdade, eles não estão mais longe da subjetividade do que poderiam acusar os protestantes.

Quanto aos protestantes a infalibilidade está na Escritura. Não podemos confundir livre interpretação com licenciosidade, pois mesmo que a interpretação seja livre, não se pode fugir as características do próprio objeto, por exemplo, diante de uma mesa redonda, mesmo que a interpretação dos sinais seja subjetiva, porque cada pessoa tem uma, você não pode dizer que ela seja quadrada, a não ser que tenha um excelente argumento para isso, nem pode dizer que ela é de pedra, se ela for de madeira etc. Assim, a Escrituras tem características que são dela mesma, cujo o hermeneuta não pode fugir de forma alguma.

REGRAS HERMENÊUTICAS (Essas regras são gerais, não entraremos nos casos particulares)

1 – A Escritura é a infalível Palavra de Deus (aqui temos três formas de ver a infalibilidade). Desse dogma, segue-se os demais (aqui também segue-se que doutrinas liberais, que negam a infalibilidade das Escrituras, é herética). Isso também nos leva à conclusão que é a Escritura que diz o que a Igreja ensina, não é a Igreja que diz o que a Bíblia ensina.

2 – Não se deve colocar o pensamento do hermeneuta na interpretação, mas o que a Escritura diz.

3 – Bíblia interpreta a Bíblia. Toda interpretação deve ter como pano de fundo outras partes da Escritura, sendo que deve-se dar prioridade aos versículos anterior e posterior ao que o hermeneuta está avaliando, logo após o capítulo inteiro, a carta ou livro inteiro, outros livros ou cartas do mesmo autor, para somente passar para o contexto geral e ensino geral das Escrituras, esse é o método para se interpretar partes particulares da Escritura.

4 – Deve-se levar em conta que toda doutrina tem uma história, e deve-se desconfiar de forma severa, de toda doutrina que se diga nova, pois uma vez que acreditamos que o Espírito Santo nos ilumina durante a interpretação, devemos então levar em conta a interpretação de grandes homens de Deus que vieram antes de nós, pois os mesmos também foram iluminados pelo Espírito Santo (iluminação do Espírito não torna o intérprete infalível, quem acredita em infalibilidade de pessoas são os Católicos Romanos, não os protestantes), logo, não se deve descartar temerariamente aquilo que foi escrito e interpretado antes de você.

5 – Devemos ter em mente que os protestantes aceitam até o IV Concílio ecumênico, isso estabelece alguns Dogmas do qual não podemos fugir, como a Trindade e o anti-pelagianismo, ou seja, pelagianismo e arianismo/sabelianismo, são heresias e portanto não podem ser achados na Escritura. Tenhamos em mente que os reformadores não queriam fundar uma nova Igreja, mas voltar aos ensinos da antiga Igreja, prova disso é que os escritos de Lutero e Calvino, os maiores reformadores, estão recheadas de citações dos pais da igreja e são endossadas por toda a história da igreja. Para os reformadores, os papistas, tinham se desviado da verdadeira doutrina, mas isso não pode ser considerada uma revolução, pelo contrário, uma vez que buscamos voltar ao início e às primeiras doutrinas, na verdade somos conservadores, revolução seria se os protestantes trouxessem uma doutrina que não fosse encontrada nos pais, nem nos primeiros concílios. 

6 – Os protestantes endossam também o Credo Apostólico e os 5 Solas da reforma (Sola Gratia, Sola Fide, Solus Cristus, Soli Deo Glória, Sola Scriptura), seguindo os 5 solas, estabelecemos muitas doutrinas como heresia, por exemplo os Mórmons, são hereges pois trazem um outro livro com autoridade igual ao da Escritura, isso é impossível, pois fere o dogma da Sola Scriptura (somente a Escritura é infalível e está acima dos demais guias, que é a Igreja e a tradição). Outro exemplo seria pregar salvação por obras, isso negaria a sola fide e a sola gratia, é heresia incontestável. A doutrina de que Maria é nossa mediadora, também é heresia, porque a coloca no mesmo patamar de Cristo, e em uma função que só Cristo pode exercer. Por fim, deve o hermeneuta conhecer o modus operandi de uma correta aplicação das regras hermenêuticas (exegese), para que assim não incorra em erros.

7 – Ao hermeneuta, o mesmo não pode ser um homem ímpio, ele deve ser convertido e crer nos dogmas protestantes.

8 – Deve ser alfabetizado e ter treinamento teológico suficiente para conhecer as regras hermenêuticas e aplica-las sem cometer falácias.

9 – Muitas Igrejas elaboram suas confissões de fé, essas confissões são importantes documentos para termos como guias na sua exegese, ou seja, se você está interpretando diferente da sua confissão de fé, deve-se avaliar novamente a sua interpretação, e caso continue discordando, levar suas conclusões a outros teólogos para uma avaliação mais precisa e encontrar possíveis erros. No entanto, as confissões não são infalíveis, são guias que poderão acusar onde o exegeta está errando, ou onde ele deverá ter um cuidado maior antes de se pronunciar, mas se a regra hermenêutica estiver correta, a interpretação do autor pode se sobrepujar à confissão.

CONCLUSÃO

Serão deixados alguns links sobre a história da hermenêutica e métodos hermenêuticos para melhor investigação, mas o texto acima já pode com clareza responder a objeção de subjetividade colocada pelos romanistas.





17 de março de 2018

O calvinismo foi responsável pelo ateísmo europeu?

O responsável pelo ateísmo na Europa foi o liberalismo teológico, segundo a lógica de alguns, o calvinismo deu origem ao liberalismo teológico e por consequência ao ateísmo. Mas quem foram os primeiros liberais da Europa? Segundo Roger Olson:

"A partir da época de Limborch, muitos arminianos, em especial aqueles na Igreja da Inglaterra e nas igrejas congregacionais, mesclaram o arminianismo com a nova religião natural do íluminismo; eles se tornaram os primeiros liberais dentro do protestantismo." (1)

Como vemos, os primeiros liberais da Europa foram arminianos, não foram calvinistas, se seguirmos essa lógica, o ateísmo europeu foi culpa de quem? É importante salientar que as Igrejas arminianas também foram as primeiras a realizaram casamentos gays. O pastor Franklin Ferreira diz: "Na Inglaterra, no século XVIII, muitas das igrejas batistas gerais (arminianas) se tornaram unitarianas; nos Estados Unidos, na região de Boston, as igrejas congregacionais que se tornaram arminianas, aderiram ao unitarianismo e ao universalismo, no século XIX – e algumas destas igrejas existem até hoje. Na atualidade, os arminianos holandeses (conhecidos como Irmandade Remonstrante) são ligados à European Liberal Protestant Network, uma associação que congrega igrejas europeias de confissão liberal – inclusive comunidades unitarianas da Inglaterra, Hungria e Transilvânia. A Irmandade Remonstrante começou a reconhecer uniões homossexuais em 1986, ganhando o dubio destaque de ser a primeira igreja no mundo a abençoar estas relações." (2) (3)

Tenhamos por refutada a posição desonesta de alguns arminianos, que acusam o calvinismo de causar o liberalismo teológico e por consequência o ateísmo europeu, me parece que a pistola está virada para o outro lado.

Referências
1 - OLSON. R. Teologia Arminiana: mitos e realidades. Ed. Reflexão. S/D. pág 30.


Por Francisco Tourinho

23 de janeiro de 2018

Vai e Imita o "Pagão"!


Texto base: Lucas 10:25-37 (parábola do bom samaritano)

As experiências que se tem ao caminhar, não dependem do caminho, mas de quem caminha. No Ensino de Cristo do bom samaritano, havia três pessoas andando pelo mesmo caminho e seguindo na mesma direção; a diferença entre elas foi a resposta ao chamado da vida. A ironia está em que líderes religiosos (sacerdote e levita) que supostamente deveriam ser versados na prática do amor, socorro, acolhimento e empatia, passaram ao largo ignorando um homem que houvera sido assaltado, espancado e abandonado para morrer à beira da estrada, ao passo em que um "pagão", estranho ao "povo de Deus" e tido como maldito por este mesmo "povo de Deus", se deteve em Amor, deu toda atenção, assistência e ajuda necessárias àquele moribundo excedendo até o primeiro valor da estadia na estalagem - para o caso dele precisar de mais recursos - se comprometendo, inclusive, de passar por lá no seu retorno e cobrir quaisquer despesas que fossem em maior valor. O samaritano não conhecia o tal homem; sabia que não seria ressarcido nos valores que gastou - e que por certo não foram baixos; não tinha nenhuma garantia de reencontrar o assaltado, não tinha os hábitos, as práticas, os rituais, as tradições, e as observâncias das leis judaicas; e, sobretudo, não conhecia o Deus judeu através da religiosidade. Porém, o conhecia por tê-lo no íntimo em forma de compaixão profunda e atitudes coerentes com sua Divina humanidade. Jesus disse àquele religioso para quem Ele em primeira mão contou esta história: "Vai e imita o "pagão"...


Autoria: Carlos Barbosa 
Revisão Teológica: Francisco Tourinho 

9 de dezembro de 2017

Expiação Definida (A Poderosa e completa obra de Cristo)


INTRODUÇÃO
Algumas pessoas pensam tratam a expiação definida como se fosse um ponto colocado forçosamente em meio as doutrinas da Graça, elas pensam que ela é aquele sujeito indesejado que não deveria estar junto com a família. Quando era Arminiano perguntei a um Calvinista: "Por que você crê na expiação limitada?", a resposta dele foi chocante para mim: "Eu creio pois ela é a consequência lógica e filosófica dos outros pontos". Apesar de crer na expiação definida hoje, essa resposta continua sendo chocante e vazia, a sistematização de uma doutrina muitas vezes pode remover a beleza da doutrina, é esta beleza que eu quero procurar enxertar neste texto, pela graça de Deus.
Definida ou Limitada?
As pessoas gostam de acusar os cristãos que creem nas doutrinas da graça de limitarem a Cruz, eu mesmo já fiz essa afirmação "Vocês serram os braços da Cruz, e a única coisa que resta é a estaca", com esta afirmação eu sentia no meu coração piamente que a expiação definida limitava a obra de Cristo e roubava da sua obra o amor divino por toda a humanidade, hoje vejo como eu estava enganado, porém eu baseava essa minha afirmação na vida e nos tipos de abordagem que alguns calvinistas usavam, pareciam estar fazendo apenas proselitismo por sua doutrina e eram vazios de evangelismo, infelizmente não posso negar que existam muitos reformados (principalmente os que estão conhecendo agora as doutrinas da graça) que possuem justiça-própria por sua doutrina, mas isso não significa que haja a necessidade de todos que abracem as doutrinas da graça serem ignorantes ou insensíveis.
Os que atacam essa doutrina gostam do termo "limitada", eles ressaltam o fato de que Cristo não morreu por todos, logo a expiação é limitada, porém essa acusação os tira da frigideira e os leva para o fogo; se a expiação da doutrina calvinista é limitada em números, então a expiação arminiana é limitada em eficácia pois, no arminianismo, a morte de Cristo não garante salvação. Mesmo assim, o termo que acredito ser o melhor usável é expiação definida e a afirmação é esta - nós não cremos que a obra de Cristo tenha um poder limitado, existe poder na obra de Cristo para apagar todos os pecados "de 10.000 mundos" como diria Spurgeon, mas ela é eficiente apenas para aqueles pelos quais o Pai e Cristo tiveram a intenção de que Cristo desse a sua vida. Logo a expiação não é limitada em seu poder ou até mesmo alcance, ela não é limitada pelo homem, mas pela Intenção de Deus, já no arminianismo o que limita a expiação é a vontade do homem.
Qual a intenção de Deus na Morte de Cristo?
Ao fazermos essa pergunta, é imprescindível analisarmos o evangelho de João, nós veremos desde os primeiros capítulos que "Deus Pai enviou Cristo ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele!" (Jo 3.17). Está afirmação é maravilhosa, porém se pararmos por aqui, caímos no Universalismo pois o versículo seguinte traz "Quem crê nele não é condenado, quem não crê já está condenado" (v 18), a mesma coisa vemos no v 16 "Deus amou o mundo de tal maneira" expressão do caráter divino, "que deu o seu único filho para que todo aquele que nele crer não pereça mais tenha a vida eterna", intenção, esse é o propósito da morte de Cristo: "Salvar todos aqueles que creem n’Ele", os crentes são conhecidos na Bíblia como povo de Deus. Até aqui tanto arminianos como calvinistas creem, até certo ponto, da mesma maneira, Cristo morreu por todos os que creem. Mas o evangelho de João é muito rico, e Cristo vai desdobrando cada vez mais o propósito de Deus, se pararmos por aqui não iremos descobrir qual era a intenção do Pai, por isso vou levar vocês até o capítulo 6 de João, onde a questão encontra tensão máxima.
Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora.  Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E a vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no último dia. João 6.37-39
Para que você entenda este texto é necessário ler todo o contexto e o que estava acontecendo aqui: Jesus havia acabado de fazer o milagre da multiplicação dos pães e peixes, o povo se saciou com pão, no versículo 15 vemos que o povo queria fazer de Cristo seu Rei, seguindo o texto no vs 26 Jesus diz que eles não creram nele por evidência dos sinais que operou, mas sim porque comeram do pão e se saciaram, isso demonstra que a fé deles não era uma fé genuína gerada pelo arrependimento e revelação do Espirito, mas uma fé plenamente natural e interesseira, prosseguimos, no vs 28 os judeus perguntam para Jesus o que deveriam fazer, qual obra que eles deveriam realizar, ou seja "Jesus o que nós temos que fazer?" Jesus responde aos Judeus "A Obra de Deus é esta: que creiais naquele que ele enviou" vs 29. Deus não requer esforço do homem, requer a fé no filho de Deus, porém o próprio Senhor nos diz que essa Obra é de Deus e não nossa. Quando seguimos mais um pouco pelo sexto capítulo do evangelho de João, chegamos onde queríamos, a saber, qual a intenção de Deus em enviar Cristo ao mundo? O vs 38 traz o seguinte: "Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou" Este é um prenúncio, Jesus está olhando para os judeus agora, que vieram até ele para aclamá-lo como Rei porém, não criam de verdade n’Ele, e ele diz que veio do céu não para fazer a vontade d’Ele, eles queriam aclamar Cristo como Rei, mas Cristo via a si mesmo como Servo, ele diz para eles em poucas palavras isso: "eu não posso ser rei, pois eu não vim fazer a mim vontade, eu vim fazer a vontade daquele que me enviou", "eu tenho uma missão, eu tenho um proposito e uma finalidade eu não posso trocar esse proposito por caprichos humanos", em outras palavras "eu vim servir e não para ser servido" Compare com Mateus 20.28, no versiculo 39 ele exclama qual a vontade, qual o proposito e intenção do Pai com a sua morte: "E a vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no último dia". Jesus veio especificamente para aqueles que o Pai deu, para guardar todos os que o Pai deu a Ele, esse é um dos ápices da revelação da intenção de Deus a levar Cristo ao mundo, isso ressoa também com a obra de Cristo na terra quando ele afirma no evangelho sinótico de Mateus:
Bem como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos. Mateus 20:28
Essa é a intenção da morte de Cristo, dar a sua vida em resgate de muitos. Diversos outros textos quando lidam com a intenção da morte de Cristo nos demonstram isto:
Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do Senhor prosperará na sua mão. Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si. Isaías 53:10,11
E dará à luz um filho e chamarás o seu nome JESUS; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados. Mateus 1.21
Porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados. Mateus 26.28
Continuando a exegese do Capitulo 6 de João, podemos ver ainda que Cristo demonstra claramente o proposito e definição da vontade do Pai:
Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. João 6.40
A intenção do Pai é que todo aquele que veja o filho e creia nele tenha a vida eterna, veja bem isso, agora seguimos:
Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. João 6:44
A oferta do evangelho é uma oferta sincera pois todo aquele que vê o filho e crer nele tem a vida eterna, porém os judeus replicaram e Jesus respondeu a eles, que eles não conseguiam fazer isso, não por uma inabilidade física (pois todos eles estavam diante de Jesus), mas sim por uma incapacidade interior, e por isso o Senhor determina a causa dessa recalcitrancia dos Judeus: "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer"
Como podemos ver não é por uma falta de poder ou inabilidade do Sacrifício de Cristo que as pessoas não são salvas, pelo contrário o sacrifício de Cristo é suficiente para todos e todos são chamados para participarem deste evangelho, porém a eficiência é derramada somente aos que creem, ou seja aqueles que o Pai traz até Cristo. Logo a intenção do Pai é salvar todos aqueles que ele traz até Cristo, estes creem, e que Cristo os de a vida eterna e os ressuscite.
Posteriormente Jesus afirma a mesma coisa aos discípulos no encerramento do Capítulo:
E dizia: Por isso eu vos disse que ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lhe for concedido. João 6:65
Esse é o proposito e intenção do Pai, alguns agem como se não fosse o mesmo proposito e intenção de Jesus, eles dizem que o Pai decidiu salvar os eleitos por meio da expiação, porém Cristo fez um sacrifício voltado a toda a humanidade de maneira indistinta, porém o próprio Jesus diz "Eu vim não para fazer a minha vontade, mas sim a daquele que Ele me enviou" portanto a vontade do Pai é necessariamente a vontade do filho, os dois são o mesmo Deus.
No Capítulo 10 de João, esse texto é um dos textos que me trouxe à doutrina da Eleição, vemos aquilo que eu vejo ser a afirmação mais categórica da expiação definida, porém para chegarmos lá vamos analisar o texto proposto:

"Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas. Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido. Assim como o Pai me conhece a mim, também eu conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas. Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor. Respondeu-lhes Jesus: Já vo-lo tenho dito, e não o credes. As obras que eu faço, em nome de meu Pai, essas testificam de mim. Mas vós não credes porque não sois das minhas ovelhas, como já vo-lo tenho dito. As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem; E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai. Eu e o Pai somos um. Evangelho de João 10:11,14-16,25-30
Continuando nossa abordagem a respeito da Intenção da morte de Cristo, podemos ver que O Senhor afirma que dá a sua vida pelas ovelhas no contraste disso mais claro ele diz no vs 26 "Mas vós não credes porque não sois das minhas ovelhas, como já vo-lo tenho dito" Cristo está especificando aqui o motivo pelo qual os fariseus não creram, pois eles não eram das ovelhas de Cristo, esse é o motivo de não crerem, mas o Senhor deixa aqui de maneira muito clara que ele morre pelas suas ovelhas, e ainda ressalta que possui "ovelhas não deste aprisco" se referindo obviamente "aos filhos de Deus que andam dispersos pelo mundo inteiro" João 11.50-53
O último versículo de João que quero analisar sobre a Intenção da obra de Cristo é João 17.9:
Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus. João 17:9
Jesus não orou pelo mundo, mas orou por aqueles que o Pai deu para ele, no contexto de João 17 podemos ver que Jesus estava firmemente voltado para aqueles que o Pai deu a Ele, isso incluía sem dúvida aqueles que viriam a crer por intermédio dos apóstolos, e menciona inclusive Judas que é o filho da perdição. Isso nos ressalta que a obra de Cristo teve a intenção não de salvar o mundo, mas aqueles que o Pai deu a Ele.
O Coração da doutrina da Eleição
Por fim, para não prolongar mais o assunto, vou passar a epístola de Efésios, onde Paulo nos demonstra um padrão para o casamento:
Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra, Para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível. Efésios 5.25-27
Esta passagem nos apresenta um ponto que eu creio que seja chave para entendermos tanto a intenção quanto o amor de Cristo pela sua amada Igreja. O Apóstolo Paulo aqui nos mostra que assim como Cristo deu a vida pela Igreja o marido deve fazer pela sua esposa, em outras palavras o marido não morre por uma mulher qualquer, nem por outra mulher, ele não se entrega de maneira plena à uma desconhecida, mas apenas aquela pelas quais ele trocou votos, aquela que ele jurou amor eterno, e fez uma aliança. O amor não pode ser uma mera decisão, também não é um mero sentimento, o amor é uma aliança, as alianças dos homens são quebráveis, mas as alianças de Deus são inquebráveis, em hebreus nós vemos a imutabilidade de Deus e de suas promessas:
Porque os homens certamente juram por alguém superior a eles, e o juramento para confirmação é, para eles, o fim de toda a contenda. Por isso, querendo Deus mostrar mais abundantemente a imutabilidade do seu conselho aos herdeiros da promessa, se interpôs com juramento; Para que por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos a firme consolação, nós, os que pomos o nosso refúgio em reter a esperança proposta; A qual temos como âncora da alma, segura e firme, e que penetra até ao interior do véu, Onde Jesus, nosso precursor, entrou por nós, feito eternamente sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque. Hebreus 6:16-20
A aliança é a base do amor, bem como o alicerce de qualquer vínculo ou amizade real, se algum homem começar a entregar sua vida por uma outra mulher com todo seu ser, obviamente ele não faz isso motivado em qualquer outra coisa a não ser seu interesse de ter ela para si, então assim como o marido se mantem fiel à sua esposa por mais que ela falhe com ele, assim também Cristo não abandona sua noiva pelo qual ele deu sua vida.
Isso se mantem pelo fato de que Cristo continua intercedendo por sua noiva, essa intercessão mostra que Ele é cumpridor de sua aliança, intercedendo sempre por aqueles que ele escolheu:
Quem é que condena? Pois é Cristo quem morreu, ou antes quem ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós. Romanos 8:34
Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles. Hebreus 7:25
Segundo o escritor de Hebreus essa intercessão é sacerdotal, ela é continua, Cristo intercedeu, intercede e intercederá por nós enquanto precisarmos, essa obra é perfeita e completa. Está fundamentada na sua aliança, que está fundamentada na sua intenção de salvar todos os seus eleitos.
Aqueles que removem a aliança removem o amor de Deus, a aliança divina e o pacto d’Ele é o proposito pelo qual o filho veio ao mundo.
Expiação uma obra forense completa
John Owen enfrentou resistência de Richard Baxter pelo fato de ter pregado a expiação de maneira substitutiva, segundo Owen o sacrifício de Cristo pagou por todos os pecados dos eleitos de maneira plena e penal, foi completo substituto, mesmo antes deles creem, essa obra já estava legalmente sobre os eleitos. Isso fez Baxter temer que John Owen estivesse dando espaço ao antinomianismo, e desencorajasse que os crentes depositassem sua fé em Cristo de alguma maneira. Na verdade, o raciocínio de Owen nos leva a uma pergunta: "O que gerou o que?"  É a nossa fé colocada na obra de Cristo por nós que nos faz justos, mas essa fé vem de onde? O raciocínio é simples, esta fé do próprio Cristo, dada por nós, o que Cristo obteve para nós na cruz, foi um novo coração, este novo coração é uma promessa da Nova Aliança, vejamos:
Semelhantemente, tomou o cálice, depois da ceia, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue, que é derramado por vós. Lucas 22:20
Porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados. Mateus 26:28
Lemos que uma das promessas da nova aliança é nos dar um novo coração:
E farei com eles uma aliança eterna de não me desviar de fazer-lhes o bem; e porei o meu temor nos seus corações, para que nunca se apartem de mim. Jeremias 32:40
E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis. Ezequiel 36:26,27
O homem possui um coração de pedra, um coração incircunciso, portanto um coração carnal, Paulo diz que cremos com o nosso "coração":
Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido. Romanos 10:10,11
Em contra-partida Estevão diz que o coração do homem natural é incircunciso e endurecido:
Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim vós sois como vossos pais. Atos 7.51
Algumas pessoas pensam que este é apenas o estado dos judeus, mas Paulo afirma que tivemos o coração circuncidado também, demonstrando que também tínhamos uma natureza indisposta para Deus:
No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, pela circuncisão de Cristo; Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos. Colossenses 2:11,12
O Fato é que o homem não regenerado está morto em seus pecados e possui o coração incircunciso, não portanto não tem como responder com Fé, por ter um coração insensível, é com o coração que cremos. (João 3.6, Romanos 8.8, Efésios 2.1-4)
Porém a promessa da Nova aliança é justamente nos dar um coração novo:
Porém não vos tem dado o Senhor um coração para entender, nem olhos para ver, nem ouvidos para ouvir, até ao dia de hoje. Deuteronômio 29.4
E o Senhor teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao Senhor teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas. Deuteronômio 30:6
“Nenhum homem jamais circuncidou o seu próprio coração. Nenhum homem pode dizer que, pelo poder da sua própria vontade, começou a fazê-lo e que Deus então o ajudou pela Sua graça. A circuncisão do coração feita pelo Espírito Santo remove a cegueira, a obstinação e a teimosia que habitam naturalmente em nós. A circuncisão do coração remove todos os preconceitos da mente e do coração que impedem e resistem à conversão. Portanto, se toda essa resistência e oposição são removidas, como pode o coração resistir à operação da graça? (Vide Ezequiel 36:26,27; Jeremias 24:7; 31:33; Isaías 44:3-5)." — John Owen.
Voltamos agora a Mateus quando Jesus diz que derramou o Sangue da Nova aliança por muitos:
Porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados. Mateus 26:28
Jesus estava comprando para o seu povo todas as promessas da Nova Aliança, ele estava fazendo pagamento por todas as bençãos espirituais que recebemos do Pai celestial, e por um novo coração para que possamos crer.
O Texto de Gálatas 2.20 na revista e atualizada trás:
Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim. Gálatas 2:20
Essa fé que recebemos não é nossa, mas foi comprada pelo filho de Deus, por isso também recebemos o Espirito do Filho:
E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai. Gálatas 4:6
Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes em temor, mas recebestes o Espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai. Romanos 8:15
O Escritor de Hebreus também nos diz que Jesus Cristo é o autor e consumador de nossa Fé:
Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus. Hebreus 12:2
Assim concluo aqui a exposição sobre expiação definida, muitas outras coisas nós podemos analisar, mas decidi fazer este texto de maneira breve, para que em outras ocasiões discorremos melhor sobre o assunto, e também para deixar o leitor com a mente fresca pensando nos textos aqui expostos.

Graça e Paz do Senhor Jesus Cristo!

Yuri Schein, Capão da Canoa 27/10/2017
Revisão teológica: Francisco Tourinho

6 de dezembro de 2017

REFLEXÕES SOBRE BEM X MAL, PITECOS INTELIGENTES E ATEUS INDIGNADOS

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Ateus não podem sofrer ou se indignar com as injustiças e barbáries do mundo. Pelo menos não se quiserem manter sua coerência.

A razão é muito simples:
Se a origem do ser humano é apenas o impulso cego de um Universo não consciente - sem planejamento, pessoalidade ou transmissão de qualquer ordem moral transcendente - não há realidade objetiva em conceitos como certo x errado ou bem x mal. Tais coisas são apenas construções socioculturais com adaptabilidade para diferentes contextos antropológicos.

Assim, deve-se admitir que tudo o que ocorre no mundo como fruto da ação humana não é passível de julgamento moral, mas está aí apenas como resultado dos movimentos de forças naturais, cegas, antigas e instintivas que agem nos homens.

Aos céticos que insistem em afirmar que é possível haver um "estabelecimento de códigos de conduta" que independe de qualquer divindade, o qual visa a sobrevivência, baseado em convenções e contratos sociais, que foram sendo elaborados ao longo dos milênios, com base na observação da realidade por parte de nossos ancestrais "Pitecos" (lembra do personagem da Turma da Mônica? kkkk... vou chamá-los assim), podemos responder:

Para dar força ao argumento da elaboração espontânea e autônoma de códigos morais complexos, os ateus superestimam ao nível do absurdo as capacidades intelectuais de seres que, segundo a própria teoria da evolução, ainda estariam galgando a escada darwiniana rumo à plena humanidade, ao status de Homo sapiens.

Os Pitecos deveriam observar atentamente a realidade, perceber no cotidiano as leis de causa e efeito na relação deles com o mundo à sua volta e orquestrar as demandas coletivas com os interesses individuais a fim de montar padrões de conduta funcionais, que garantissem convivência razoável e sobrevivência. Mas não para por aí!! Nossos ancestrais deveriam ainda encontrar a melhor forma de convencer os outros a aderirem ao "contrato", desenvolver e ensinar mínimas noções de tolerância, respeito e sacrifício, transmitir o "legado" de "guardiães do contrato" às gerações posteriores e garantir que o mesmo se convencionasse, ou seja, que se consagrasse com o tempo e uso, adquirindo força e peso de tradição. Ora, cumprir tal empreitada, ou ao menos ter na mente a visualização dela e o intento de realizá-la requer um altíssimo nível de consciência, criatividade, eficiência, influência - em suma: inteligência! Portanto fica esclarecido aqui que estamos tratando de algo complexo. E, sinceramente, difícil supor que tais hominídeos possuíssem essa estrutura mental/moral, já que a própria versão evolucionista da história da vida em nosso planeta afirma que tudo ocorreu - incluindo o desenvolvimento da raça humana - no decorrer de "milhões e milhões de anos."

Pode ser que alguns tentem refutar o raciocínio anterior afirmando que é perfeitamente possível que as coisas tenham de fato assim ocorrido. Isso porque nossos ancestrais "tiveram tempo" para progredir na elaboração e estabelecimento dos códigos morais, visto que o processo foi longo. No entanto, a questão do tempo e desenvolvimento lento dos hominídeos só confere força ao nosso argumento. Explico:
Num ambiente hostil, com ameaças vindas de forças da natureza e outros seres vivos, como animais e outros hominídeos, tendo o impulso de sobrevivência própria como o instinto mais forte e considerando a morosidade natural de seu desenvolvimento, a mentalidade dos Pitecos conseguiria "fazer todos os upgrades" a tempo de alcançar a complexidade intelectiva necessária para dar conta da incrível façanha que explicamos e garantir maior período de sobrevivência da espécie?

Em outras palavras: os hominídeos conseguiriam evoluir ( mentalmente/intelectualmente) em tempo hábil para:

1 - Desenvolver um aparato intelectual que percebesse a necessidade de regras e códigos de conduta funcionais tendo em vista a sobrevivência;

2 - Elaborar as regras e códigos de conduta;

3 - Garantir que houvesse adesão e permanência dos códigos e assim, sobrevivência da espécie?

Quem crê em coisas com tão pouca plausibilidade, deve ter muita fé! Portanto, fica exposta a fragilidade do argumento da elaboração espontânea e autônoma de códigos morais complexos que visam a sobrevivência, por parte de supostos ancestrais hominídeos, num longo período de tempo.

O fato é que não há conteúdo moral numa cosmovisão puramente evolucionista. O Nada e as forças aleatórias e não planejadas do processo evolutivo não produzem um referencial de moralidade e MUITO MENOS um senso sofisticado de justiça.
Sendo assim, se há regras no mundo, se há bem e mal, tudo isso não passa de, repito, CONSTRUÇÕES SOCIOCULTURAIS. Não sendo portanto, valores e conceitos reais que se fundamentam num Padrão Absoluto pelo qual podemos aferir todas as coisas. Nesse contexto, a moral é sintética, artificial.

Ora, o que estamos fazendo aqui nesse texto? Apenas entrando no pressuposto evolucionista e demonstrando suas conclusões lógicas, levando-o até suas últimas consequências e indicando onde ele desemboca, de verdade.
Diante disso, a grande questão é: há ateus machos o bastante para admitir as implicações reais de seu sistema de pensamento? A saber: Se do Nada viemos e para o Nada iremos e se mal e bem não são concretos nem objetivos, então não há razão para a indignação, revolta ou sofrimento diante do que entendemos como atrocidades ou injustiças. Pois não há como classificar objetivamente um ato como horrendo, atroz ou injusto. Eu o entendo assim apenas porque o vejo com minhas "lentes culturais". Que faço então com Hitler, Stalin, ISIS e outros monstros e movimentos genocidas? Como os julgo? A resposta fria e seca é: não julga.

Mas podemos ir além: há ateus MACHOS O BASTANTE para assumirem EM SI MESMOS as consequências de sua não-crença e desistirem de qualquer busca por justiça, ordem e sentido? A saber: Se não há o Bem concreto, não há sentido. Se não há sentido, os pensamentos e sentimentos mais lindos que alguém pode ter em relação ao amor pelo cônjuge ou por um filho não passam de mera reação bioquímica num cérebro que não possui nenhuma "mente". Tudo é apenas carne e sensação, que um dia vai apodrecer. Não há uma alma, um espírito que possui ligação com a Transcendência. Não há vida. Apenas sobrevivência. Sendo assim, porque não assumir a macheza de disparar um tiro na cabeça?

O desejo dos cristãos sinceros e do Espírito Santo de Deus é que nenhum ateu precise ser macho em sua não-crença e coerente com seu pressuposto a ponto de levar isso até as últimas (literalmente) consequências.
Que seja macho apenas para admitir que nós seres humanos pensamos tanto sobre o Bem e Justiça, não porque os "Pitecos", em seu "brilhantismo das cavernas" perceberam a necessidade de elaboração de códigos de conduta com o objetivo de sobrevivência da espécie.

Nós não apenas pensamos, mas QUEREMOS o Bem e a Justiça, porque, mesmo que não admitamos, queremos a Deus.

"Fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em ti." Santo Agostinho.


John.


Texto do colaborador John Wesley Pedrinha

Revisão teológica: Francisco Tourinho 

4 de dezembro de 2017

O significado do termo Grego "Energeo" e o Concurso Divino - Porque os calvinistas estão certos.

O Dr. Heber Carlos de Campos escrevendo sobre o Concurso providencial divino usa a seguinte referência para nos mostrar que Deus é quem causa a vontade do homem:  


"Escrevendo aos Efésios Paulo afirma categoricamente que Deus "faz todas as coisas de acordo com o conselho da sua vontade"(Ef 1.11). Isto quer dizer que nada do que acontece neste mundo é à parte do cumprimento da vontade de Deus e sem que ele esteja envolvido. A palavra grega que é traduzida como "faz" é energeo ( de onde vem a palavra portuguesa energia, que é a comunicação de poder ou o fato de Deus trabalhar), que indica o fato de Deus energizar cada obra na qual ele participa. Sem a energia ou o poder divino, nenhum evento acontece e nenhuma obra é feita."(1)

Notemos agora o texto de Filipenses 2.13:

"Por que Deus é quem opera(energeo) em vós tanto o querer como o efetuar(energeo), segundo sua boa vontade."

Olha só como a NVI traduz: 
"pois é Deus quem efetua(energeo) em vós tanto o querer quanto o realizar(energeo)"

Note que as traduções traduzem como efetuar, realizar, é Deus quem realiza em nós o querer. 

Os molinistas pregam que Deus é apenas um colaborador do homem, afirmando que a vontade do homem não pode ser gerada e movida por Deus, e usam esse versículo em particular, para provar uma cooperação parcial de Deus para com o homem, onde o homem e não Deus determina o influxo divino. Eles afirmam isso, baseados no versículo anterior, que diz que devemos "desenvolver nossa salvação" ou em algumas versões "por em ação a nossa salvação", e que isso demonstraria uma cooperação do homem com Deus e portanto, eliminaria o concurso divino defendido por calvinistas que defendem o determinismo causal. Mas essa resposta está errada, pois pressupõe que o calvinista nega a participação humana no concursus divino, quando na verdade defendemos que a participação de Deus é total e do homem é total, ao contrário dos molinistas que dizem que a participação de Deus é parcial e a do homem é parcial, portanto, o fato do homem participar, não anula o determinismo causal.

Alguns molinistas tem proposto que esse texto na verdade quer dizer que Deus colabora com o homem, mas esse significado não existe para a palavra energeo, como veremos nas representações mais abaixo, eu posso ir além, a palavra “energeo” no grego tem sempre significado de trabalho, energia, causa, nunca de cooperação. Vejamos algumas referências:





Essa próxima referência será da maior autoridade em grego no mundo hoje, Dr Daniel Wallace:




Então é óbvio que quando o texto fala que ele faz todas as coisas, significa dizer que energiza todas as coisas, que ele opera em todas as coisas, que trabalha. 










Dicionário Strong, referência 1754:













Em contrapartida, a palavra cooperar em grego é a palavra Synergeo, ou a conhecida "Sinergia", que é usada em Filipenses 2.25:

"Julguei, contudo, necessário manda-vos Epafrodito, meu irmão, e cooperador (syenergeo), e companheiro nos combates"

Se Paulo quisesse falar que Deus coopera com o homem, ele teria usado o termo synergeo, não energeo, como foi em Filipenses 2.13, já que o termo energeo em hora alguma significa cooperar. 





CONCLUSÃO

Como puderam notar, o significado dessa palavra está perfeitamente alinhado com a interpretação calvinista de que Deus causa, energiza todas as coisas, torna possível, portanto é ele quem causa e torna possível todas as coisas, isso não exclui a vontade do homem. A vontade do homem não pode originar-se por si só, ela deve ser movida e causa por outro e esse outro é Deus. 






8 de novembro de 2017

O texto de 2 Pe 2.1 ensina a Perda da Salvação?

Texto de debate: 2 Pe 2.1

“E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição.”

Segundo uma linha de pensamento, o apóstolo Pedro está afirmando que os falsos mestres que operavam na Igreja da Ásia foram salvos e por qualquer motivo o Senhor Jesus não teve capacidade suficiente para guardar o seu povo a salvo, porém será que Pedro está aqui fazendo esta afirmação? Será que o irmão Pedro está afirmando que o homem salvo pode perder a salvação? A resposta é um redondo NÃO! O próprio irmão Pedro esclarece isso versículos depois.
Observamos que o irmão Pedro faz uma afirmação muito forte e complexa para a hipótese de salvação e perda de salvação, pois Pedro afirma que estes “nasceram para serem capturados e destruídos” (2 Pe 2.12). Olha que coisa interessante, “NASCIDOS... PARA SEREM DESTRUÍDOS”, ou seja, estes falsos profetas desde o nascimento nunca foram salvos, pois nasceram para serem destruídos.

O termo aqui utilizado para destruição é “phothora”, φθορα, e apesar de fazer uma clara indicação de “corrupção” que por si já revela que estes estão predestinados deste o nascimento a ser corrupto e não poderá mudar a sua natureza corrompida, ou seja, não poderá ser regenerado,  o dicionário de Strong (5356) ainda faz uma importante observação sobre este termo:
(1b) “No sentido cristão, sofrimento eterno no inferno”.

Por fim, Pedro afirma:
“NASCIDOS PARA SEREM DESTRUÍDOS (não regenerados)”. E o irmão Pedro continua:
“Deste modo sobreveio-lhes o que por um verdadeiro provérbio se diz: O cão voltou ao seu próprio vômito, e a porca lavada ao espojadouro de lama.” (2 Pe 2.22)

Algum deles deixou de ser cão? Algum deles deixou de ser porco? O irmão Pedro faz uma referência a Isaías 56.10 onde os falsos pastores são chamados de cães gulosos que nunca se fartam, preguiçosos e gananciosos. Tanto os cães como os porcos eram animais impuros para o povo de Deus no Antigo Testamento, os Judeus chamavam de cães todos aqueles que não pertenciam ao povo escolhido. Assim Pedro faz essa comparação, ao chamar os falsos profetas de cães, ou seja, pagãos, aqueles que não faziam parte do povo escolhido, isso é claro como água.
No entanto, a pergunta persiste – por que então o irmão Pedro afirma que esses cães, embora nunca tenham deixado de ser cães, foram resgatados, como se pudessem deixar de ser cães? Sobre a palavra resgate nesse texto respondemos que:

O TERMO GREGO

1- O termo aqui utilizado é “agoradzo” e este termo traz a ideia de um pagamento exigido por uma transação, porém o fator importante é que este termo não traz absolutamente a noção ou certeza de que este produto da transação será de posse do comprador, ou seja, uma pessoa poderá pagar o preço necessário pelo produto, porém não terá o domínio ou direito de posse do mesmo. Portanto, mesmo que esse termo tenha sido usado em outros textos para expressar o preço pago por Jesus ao seu povo, ele também é usado para uma compra que não é para si mesmo, como em Lucas 9.13:

“Mas ele lhes disse: Dai-lhes vós de comer. E eles disseram: Não temos senão cinco pães e dois peixes, salvo se nós próprios formos comprar comida para todo este povo”. (Lc 9:13)

Observamos que apesar do pagamento ser realizado pelos apóstolos o destino final eram outros e não o pagador. Podendo ter dois sentidos, devemos então analisa-lo pelo contexto, que como já mostramos, é bem claro ao informar qual era a natureza dos falsos profetas.
Existem mais dois termos gregos que trazem a ideia de um pagamento, são eles:

2-  “exagoradzo”: Este termo tem a mesma origem do estudado acima, porém, ele vem acompanhado de uma preposição “ek” e isto é de suma importância, comprar um escravo e lhe conceder liberdade. Este termo é um bom representante da ideia de redenção e salvação, pois o Senhor não só pagou o preço como adquiriu o homem para si, dando-lhe liberdade. Este termo aparece quatro vezes na bíblia e tem um uso especial trazendo o sentido acima em Gálatas 3:13 e 4:5. (Ver. Ef 5:16 e Cl 4:5). Esse termo não admite uma dupla interpretação.

3- “lutroo”: Este termo também traz a ideia de um pagamento, porém a ideia central aqui é de um pagamento para colocar em libertação sem definir o destino final de quem é liberto pelo pagamento. Este aqui o Apóstolo Pedro utiliza na primeira epístola – (1 Pe 1:18) para trazer a memória que houve um pagamento pela libertação e resgate dos ouvintes que estavam debaixo dos rudimentos recebidos dos antepassados.

O termo utilizado por Pedro no texto em apreço não traria uma ideia absoluta e incontestável de salvação, (e como mostramos o contexto é claro que ele não quis dizer isso, e se quis, então ele se contradisse, o que é um absurdo) e sim de um pagamento sem um verdadeiro destino do produto. Se Pedro tivesse utilizado o termo “exagoradzo” estaria fazendo uma afirmação de que estes por quem foi realizado o pagamento seriam de posse do comprador e também libertador daqueles a quem adquiriu, porém isto não acontece aqui. (para uma consulta melhor, dirija-se à nota de rodapé)

O que poderíamos tirar deste estudo dos termos é uma possível ideia de “expiação ilimitada” e não absolutamente de salvação e perda de salvação. Esse ponto será explicado mais adiante.
Se olharmos para o contexto entenderemos que o apóstolo Pedro não estava falando que estes falsos mestres ora tinham sido salvos e entraram em apostasia e perderam a salvação, por quê?
Voltando para o texto nós notaremos que Pedro estava fazendo uma alusão e comparação do Povo de Deus chamado Igreja (Igreja visível que estava na Ásia) e o antigo Povo de Deus chamado Israel.


Algumas perguntas relevantes

Pedro diz: “que assim como no meio do Povo houve falsos profetas”;
De quem Pedro estava falando? Qual o Povo em que estes falsos profetas se manifestaram?
Claro está que Pedro estava falando dos Israelitas e dos falsos profetas que tinham se intrometido no meio do Povo de Deus. Pedro aqui está fazendo um alerta para que eles tivessem atentos para que não caíssem no engano destes falsos profetas atuais assim como o Israel o tinha feito em tempos anteriores. Pedro na sequência faz registro de um falso profeta chamado Balaão e este evento se deu quando Israel estava saindo do Egito para a terra prometida. Aqui Pedro nos faz entender que o período em que ele quer que seus ouvintes tenham em mente é o da saída e peregrinação do povo de Israel. “Saída do Egito e peregrinação no deserto”.

Sabemos que na saída de Israel uma grande quantidade de pessoas agregaram ao Povo de Deus que havia recebido a promessa de uma terra que mana leite e mel, ou seja, havia no meio do povo escolhido, aqueles que não faziam parte deles, mas que andavam com eles e que foram libertos do Egito, mas não faziam parte do povo escolhido.


O que quer dizer “os resgatou”?

Se a intenção de Pedro é simplesmente trazer à memória dos ouvintes o ocorrido com o Povo de Israel, entenderemos com facilidade que Pedro gostaria que seus ouvintes entendessem que apesar de Deus ter tirado o Povo do Egito com destino à terra prometida, foi no meio do Povo uma grande quantidade de pessoas que de forma alguma entraria na terra prometida, pois não possuíam a promessa de Deus de entrar nesta terra, ou seja, o que Pedro está alertando a seus ouvintes é que em meio ao Povo redimido tinham pessoas que não estavam debaixo da promessa.

Logicamente a ideia aqui apresentada, é que Deus mais uma vez libertou um povo e que estes falsos profetas estavam inseridos, porém isto não afirma que estes falsos profetas tinham a promessa da vida eterna, assim como aqueles que foram no meio do Povo não tinham esta promessa. Apesar de  Deus ter a intenção de resgatar Israel das mãos de Faraó, foi no meio deste povo aqueles que absolutamente não tinham a promessa, porém foram visivelmente resgatados, mas não espiritualmente resgatados, o resgate foi aparente, assim como é o joio e o trigo, que achamos que os dois são iguais, até ser manifestado seus frutos, mas o joio sempre será joido e o trigo sempre será trigo.
Pedro está alertando que no meio do Povo resgatado (IGREJA VISÍVEL) estão aqueles que não entrarão na terra prometida, assim como no meio dos resgatados de Israel tiveram aqueles que não entraram na terra prometida.

“Em suma; quanto Pedro diz que eles foram resgatados Pedro está afirmando que estes falsos profetas saíram no meio do verdadeiro povo de Deus”. Assim com um homem não salvo, é abençoado por estar com uma mulher cristã, um falso profeta desfruta de bênçãos daqueles que foram resgatados, pelo fato de andar com eles.

OBS: Vemos aqui um forte ensinamento que diz respeito aqueles que desejam estar no meio do povo de Deus, porém não querem andar como o Povo de Deus.


Por que Pedro afirma que havia pessoas que estavam saindo do erro?

Aqui vemos uma clara distinção que Pedro está fazendo sobre a Igreja visível e a invisível, pois Pedro nos dá a entender que havia pessoas no meio dos fiéis que estavam estudando a palavra de Deus, pois ele diz que estas “estão quase conseguindo fugir daqueles que vivem no erro – NVI”. Pedro nos mostra que havia pessoas que ainda não estavam libertas, pois ele também afirma que estas pessoas estavam recebendo a promessa de liberdade e isto é uma clara afirmação de que havia no meio do povo de Deus (Igreja) pessoas que ainda estavam no processo de conhecimento da palavra de Deus e isto é algo que ainda acontece nos nossos dias, onde na Igreja visível, resgatada pelo Senhor, tem Libertos, não-libertos e pessoas estudando as Escrituras.


Notas:
59 αγοραζω agorazo
de 58; TDNT 1:124,19; v
1) estar no mercado, ir ao mercado
2) negociar lá, comprar ou vender
3) de pessoas vadias: perambular pelo mercado, passear lá sem um destino certo.

1805 εξαγοραζω exagorazo
de 1537 e 59; TDNT - 1:124,19; v
1) redimir
1a) resgatar do poder de outro pelo pagamento de um preço, pagar um valor para libertar alguém do cativeiro
1b) metáf. de Cristo que liberta o eleito da dominação da lei mosaica pelo preço de sua morte vicária
2) comprar, comprar para si mesmo, para uso próprio
2a) fazer uso sábio e sagrado de cada oportunidade para fazer o bem, de tal forma que o zelo e o bem que se faz são de certo modo o rendimento em dinheiro pelo qual nós fazemos nosso o próprio tempo

3084 λυτροω lutroo
de 3083; TDNT - 4:349,543; v
1) libertar pelo pagamento de resgate
2) redimir, liberar através do pagamento de resgate
2a) liberar
2b) tornar-se livre pelo pagamento de um resgate
2c) redimir
2d) livrar: de qualquer tipo de maldade, interno e externo

5356 φθορα phthora
de 5351; TDNT - 9:93,1259; n f
1) corrupção, destruição, aquilo que perece
1a) aquilo que está sujeito à corrupção, que é perecível
1b) no sentido cristão, sofrimento eterno no inferno
2) no NT, num sentido ético, corrupção, i.e., decadência moral

DICIONÁRIO BÍBLICO STRONG
Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong
© 2002 Sociedade Bíblica do Brasil

SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL


Por Romildo Mário e Francisco Tourinho

Revisão Teológica: Francisco Tourinho

P.S.: Esse é o primeiro artigo do blog escrito pela equipe de administradores. O Blog, antes com um só autor, passará a publicar artigos de outros administradores e em conjunto. Juntaremos forças para trazer artigos de relevância na teologia apologética. Deus os abençoe.